ANA PAULA
entrevista concedida a Carlos Eduardo F.Bittencourt para o
Grupo Um Milhão de Amigos

abril 2003




Uma entrevista muito especial, a da filha de Roberto Carlos, Ana Paula.
Ela nos conta passagens de sua via, fala de seu pai
e de como é ser filha do maior cantor brasileiros de todos os tempos.
Afinal, Ana Paula é papo firme.


– Ana Paula, como é ser filha do Roberto Carlos?
AP – É normal, tem o lado bom de ser filha de uma pessoa maravilhosa, e é claro que também tem o lado ruim, da superexposição, mas eu acho isso normal. Eu e meus irmãos convivemos bem com isso, afinal já são tantos anos que mesmo a superexposição já não nos incomoda.

– Quais as primeiras recordações que você tem de Roberto? Qual era a sua idade quando ele conheceu sua mãe?
AP – Eu era muito pequena quando ele se casou com a minha mãe, eu tinha apenas dois anos. As primeiras lembranças que tenho dele são como pai, mas na época a criança não guarda muito na memória as coisas que acontecem. As primeiras lembranças que tenho dele como artista foram as primeiras temporadas no Canecão. Quando ele fazia temporadas lá nós nos mudávamos para o Rio, pois morávamos em São Paulo, e ficávamos na cidade durante seis, sete meses, que era o tempo que duravam as temporadas.

– Quando você começou a perceber a importância de Roberto Carlos na música brasileira? AP – Nas temporadas do Canecão, os shows lotados, os fãs gritando e cantando com ele, foi quando eu comecei a perceber que meu pai era uma pessoa famosa.

– Você não ficava impressionada com a platéia cantando as músicas do seu pai?
AP – Não, porque eu era muito criança e achava tudo natural. As crianças não se chocam com certas coisas, pelo menos é assim que eu penso. As crianças se adaptam a certas situações, e por isso eu achava tudo aquilo natural, que fazia parte da vida dele.

– Como você sentia a ausência de seu pai no dia-a-dia envolvido com tantos compromissos profissionais? AP – Nós entendíamos que ele não podia ter uma rotina de vida como a de qualquer outro pai porque era um artista e estava sempre viajando. Ele e minha mãe sempre nos deixaram cientes da situação, e a falta dele era compensada pela presença da minha mãe, que sempre foi uma super-mãe, muito presente em nossas vidas e que na medida do possível estava sempre conosco. Eu e acho que também meus irmãos nunca tivemos problemas com o tipo de vida que ele levava e ainda leva, como por exemplo, ficar os finais de semana viajando, longe de casa. Às vezes papai ficava no Exterior, mas sempre que podia ele compensava sua ausência de alguma maneira. Eu me lembro que quando íamos para o Rio, o meu pai nos levava ao cinema Drive-in, na Lagoa. Para quem não conhece, o Drive-in era um cinema ao ar livre, onde se assistia o filme de dentro do carro. Eram cartas coisas que ele gostava de fazer para compensar a sua ausência física. Mas nós soubemos conviver bem com o tipo de vida dele.

– Você se lembra da primeira vez em que viu um show do seu pai?
AP – Foi no Canecão, não me lembro o ano.

– Em 1970 Roberto gravou uma música chamada “Ana”. Por acaso ele se inspirou no seu nome?
AP – Olhe, eu nunca perguntei isso a ele, mas apesar de ser uma música romântica eu acredito que ele até possa ter se inspirado no meu nome. Você sabe que fazer música é meio complicado, pois tem sempre a questão a rima, do compasso, e como “Ana” é um nome pequeno ele pode ter escolhido o meu nome porque se adaptava bem à melodia. Sinceramente, nunca perguntei isso a ele.

– Quando Roberto está compondo costuma pedir sua opinião ou sugestão sobre a canção?
AP – Eu considero que compor é um dom de Deus, eu não nasci com esse dom, por isso evito dar sugestão no trabalho dele. Quem sou eu para dar sugestão numa música do Roberto Carlos? Mas quando ele está trabalhando às vezes nos mostra as músicas e pede a nossa opinião. Na medida do possível eu dou a minha opinião, mas é sempre uma opinião de leiga, até mesmo de fã. Se ele aceita ou não, sinceramente não sei.

– Nos shows e Especiais da Globo ele também pede a opinião dos filhos?
AP – Também pergunta, mas como vocês sabem papai é uma pessoa que só faz o que quer, o que ele acha que é o certo para a sua carreira. Ele também é cercado de profissionais competentes e amigos, e sempre gosta de ouvir as pessoas, mas a última palavra é sempre a dele. Ele vai muito pela sua cabeça e pelas suas idéias.

– Roberto sempre fala que compõe músicas se baseando em experiências próprias ou em histórias que lhe contam. Alguma vez você contou alguma história que tenha virado música?
AP – Que eu saiba não, pode até ser que ele tenha feito alguma canção inspirado em alguma conversa nossa sem que eu soubesse. O único caso que conheço é o da música “As canções que você fez pra mim”, que foi inspirada no namoro do Dedé com a Martinha. O Dedé vive contando essa história. Eu só conheço essa música, não me lembro de nenhuma outra ou de alguma história que tenha lhe servido de inspiração. Ele nunca comentou comigo.

– A infância e a adolescência de uma filha de Roberto Carlos foram iguais a de outras meninas?
AP – Eu acho que sim porque na época da minha infância e da minha adolescência não havia tanta violência como existe hoje, então tivemos uma adolescência muito tranqüila, com liberdade. É lógico que eram tomados alguns cuidados especiais, mas a minha adolescência, assim como a de meus irmãos, foi muito parecida com a de qualquer pessoa.

– Ana Paula, é difícil conviver com certas fofocas que surgem sobre a vida de vocês?
AP – Até hoje temos que pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa ou de falar algo em público porque as pessoas públicas e suas famílias são muito vigiadas. Parte da imprensa está sempre em busca de uma fofoca, às vezes inventam até coisas que não acontecem, por isso sempre temos que nos cuidar para não prejudicarmos a vida e a profissão do papai.

– Em casa, qual dos dois foi mais exigente com vocês, seu pai ou sua mãe?
AP – A mamãe sempre foi mais compreensiva do que o papai. Ele sempre foi mais crítico, até mesmo depois que se separou da mamãe e foi morar no Rio. Ele sempre foi mais exigente. Foi até uma situação diferente, porque em casos de pais separados o pai é sempre mais compreensivo e mais bonzinho com os filhos do que a mãe, mas lá em casa foi um pouco diferente. A relação do papai conosco nunca foi do tipo “não pode”, “não quero”, “não deixo”, ela sempre foi uma relação de muita conversa e de muito diálogo.

– Até hoje Roberto é exigente com vocês ou foi só quando vocês eram crianças?
AP – Como eu disse, a relação do papai conosco nunca foi de cobrança, ainda hoje é uma relação de amizade total e completa. Ele nunca me cobrou nada, o nosso convívio é muito tranqüilo. O Papai é meu melhor amigo, estamos sempre conversando, trocando idéias, é claro que na medida do possível, quando o tempo dele permite. Eu nunca tive receio e vergonha de contar tudo para ele e nunca houve cobrança dele comigo.

– O que você mais admira no seu pai como ser humano?
AP – Tanta coisa, mas a sua simplicidade e a sua humildade são coisas que me encantam. Também admito muito a bondade do papai.

– Ana, fale um pouco da discrição da família Braga. Nós percebemos que vocês levam uma vida muito tranqüila e pacata.
AP – O artista na família é ele, não somos nós, e essa discrição não é só dos filhos, mas também da minha avó, dos meus tios, dos nossos parentes. É meu pai que tem que estar em evidência. Se até ele é uma pessoa reservada no seu dia-a-dia, se até ele não gosta de se expor, não tem cabimento nós tentarmos ser notícia.

– O que você mais admira no artista Roberto Carlos?
AP – Eu acho difícil separar o artista do seu humano, eu só me dou conta de que meu pai é um artista quando o vejo no palco ou quando há alguma homenagem a ele. Desde os dois anos que convivo com ele e por isso fica difícil colocar essa barreira entre o seu humano e o artista, para mim os dois são a mesma pessoa. Quando falo que o que mais admiro no pai é a simplicidade, eu coloco isso de uma maneira geral, no artista e no ser humano.

– Você também percebe uma transformação no Roberto Carlos quando ele está no palco?
AP – A cada dia que passa mais eu acho que meu pai nasceu para ser o que é. Seu carisma é muito forte, é absoluto, poucas pessoas têm esse tipo de carisma e o meu pai é uma delas. É esse carisma que faz com que ele se pareça outra pessoa quando está no palco, é como se ele se transformasse, ficasse maior do que é. Meu pai nasceu mesmo para ser o que é e cumpre o seu ofício de uma maneira muito bacana e digna.

– No momento difícil que seu pai passou depois da morte da Maria Rita você foi a pessoa que esteve mais perto dele. Alguma vez você chegou a temer por sua carreira?
AP – Eu acredito que meu pai chegou a pensar nessa possibilidade. A dor que ele sentiu, e que ainda sente, pela perda da Maria Rita é muito grande. Eu cheguei mesmo a temer pelo prosseguimento de sua carreira, mas no fundo eu tinha certeza de que isso não iria acontecer porque o meu pai não conseguiria ficar longo dos palcos. Meu pai nasceu para cantar e estar no palco. Pensar, eu acho que ele até pensou em largar tudo, e apesar do medo que eu também sentia dessa possibilidade no fundo eu tinha certeza de que ele voltaria a cantar.

– O show em Recife, na volta do Roberto aos palcos, foi o mais tenso para vocês?
AP – Foi muito tenso, por isso todos nós, amigos, família, funcionários, fizemos questão de estar presentes para dar apoio a ele. Mesmo porque a gente sabia o quanto estava sendo difícil para ele retornar à carreira.

– Muitas pessoas devem se aproximar de vocês pelo fato de ser filha do Roberto Carlos. Isso te aborrece?
AP – Sempre tem um chato com essa intenção, aquele que gosta de dizer que é amigo da filha do Roberto Carlos, que se aproxima apenas para saber da vida dele ou querendo conhecê-lo. É uma situação complicada porque nessa hora eu não sou a Ana Paula, eu passo a ser a filha do Roberto Carlos, perco a minha identidade. Isso sempre houve e sempre vai haver, mas esse tipo de pessoa, que se aproxima com esse objetivo, não cria relação de amizade, depois de algum tempo acaba se afastando. Nós já sabemos quando isso acontece e nos precavemos.

– Hoje pode ser natural, mas na sua infância você também achava esse tipo de amizade natural?
AP – Criança não tem esse tipo de malícia. Eu só comecei a ter consciência disso depois de uma certa idade. A criança nunca percebe se a amizade é por interesse ou não, mas é claro que no colégio sempre havia o comentário “aquela menina é filha do Roberto Carlos”, só que eu achava aquilo natural.

– Qual música do Roberto Carlos é a sua preferida?
AP – A música dele que mais gosto é “Como é grande o meu amor por você”.

– Qual o show do Roberto que você considera inesquecível?
AP – Foi o show que ele fez com o Pavarotti em Porto Alegre. Foi um show muito especial e um momento muito bonito. O estádio em Porto Alegre estava completamente lotado, apesar da chuva que caiu naquele dia. Ele mesmo estava muito feliz e alegre em poder fazer aquele show. Outro show inesquecível foi o seu retorno aos palcos, em Recife, em 11 de novembro de 2000, depois da morte da Maria Rita. Foi um show de muita tensão e aguardado por todos amigos, familiares e fãs, com muita ansiedade.

– Quando entrevistamos Dudu, ele nos contou sobre a gravação do Especial do seu pai em 1982, quando vocês filmaram a música “Fim de semana” num carrossel cenográfico e ele ficou puxando o seu cabelo. Dudu disse que você não gostou, é verdade?
AP – O Dudu ficou me cutucando o tempo todo durante a filmagem, e o diretor do Especial, o Guga, queria que nós fingíssemos que estávamos dormindo. Mas o Dudu não parava de me cutucar, pulava dentro do carro, contava piadas e fazia gracinhas. Eu ficava com vontade de rir e a gravação era interrompida à toda hora por causa dele. Até que num determinado momento eu me aborreci e ele puxou o meu cabelo.

– É verdade que quando você e seus irmãos foram com seus pais à Disneylândia, o Roberto se recusou a andar na montanha russa?
AP – Ele e o Dudu ficaram morrendo de medo, uma vergonha. Os dois homens da família não tiveram coragem de andar na montanha russa. Acho que meu pai nunca voltou a um parque de diversão, pos isso nunca andou, e acho que se voltar a entrar algum dia num parque de diversão vai evitar a montanha russa. Acredito que até hoje o Dudu também não tenha andado. Naquele dia eu fui com a minha mãe.

– Qual a maior alegria que seu pai lhe deu?
AP – São tantas, mas acho que a maior alegria é ele ser meu o melhor amigo, saber que eu posso contar com ele em qualquer momento e em qualquer hora, pois ele mora no Rio e eu em São Paulo. Outra grande alegria que o meu pai me dá é ele ser essa pessoa iluminada. Um detalhe importante nisso tudo é que ele escolheu ser meu pai. Vocês sabem que não sou filha biológica dele. Eu costumo dizer que nós nos escolhemos e esse tipo de relação é muito forte. Ele é muito mais pai do que qualquer outra pessoa que eu possa conhecer.

– Como você recebeu a notícia de que tinha mais um irmão, o Rafael?
AP – Foi tudo muito natural. O Rafael é uma pessoa maravilhosa, uma graça de menino. Ele é muito legal e eu recebi a notícia com muita naturalidade. Sinceramente não poderia esperar outra atitude do meu pai que não fosse a de reconhecer a paternidade do Rafael quando soube pelo exame de DNA que era seu filho. O Rafael foi fruto de uma relação que meu pai teve quando era jovem, antes de conhecer a minha mãe, e ele é uma pessoa muito bacana. Nós convivemos muito bem e eu gosto muito dele.

– Como Roberto Carlos está se sentindo agora com o nascimento de mais um neto, o quarto, Gianpietro, filho do Dudu e da Márcia?
AP – Ele está muito feliz e muito satisfeito com o nascimento do Gianpietro, não só ele mas toda a família. Criança é sempre uma bênção para qualquer família. Agora ele está esperando a Márcia sair da maternidade para conhecer o neto.

– No dia do nascimento do Gianpietro ele ficou em contato com vocês por telefone?
AP – Durante todo o dia ele ligou várias vezes para o Dudu e foi a primeira pessoa para quem o Dudu deu a notícia depois da cesariana.

– No seu ponto de vista, qual a importância dos fãs na vida e na carreira de Roberto Carlos?
AP – A importância é total, não só para ele para qualquer artista. O artista sem o fã não existe, é o fã quem dá força e impulsiona o artista para seguir em frente. – Que mensagem você mandaria para seu pai, pelo seu aniversário, através do nosso jornal? AP – Eu espero que de alguma maneira ele consiga conviver com essa dor que está sentindo pela ausência da Maria Rita. Não falo em superar porque sei que ele nunca vai superar essa dor, mas que ele saiba conviver com essa saudade. Eu sei que não está sendo fácil.

– Como você define Roberto Carlos?
AP – Definir Roberto Carlos? Que difícil! Mas o acho uma pessoa bondosa, humilde, uma pessoa iluminada, um ser humano iluminado.


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