AURINO
entrevista concedida a Carlos Eduardo F.Bittencourt para o
Grupo Um Milhão de Amigos

12.01.2000




Cacique Barreto, como Roberto Carlos carinhosamente o chama, é o nosso entrevistado deste mês. Aos poucos vamos conseguindo ouvir todos os músicos do RC-9, aqueles que têm a honra e o privilégio de dividir o palco com Roberto Carlos. Já passaram pelas páginas do nosso jornal: Clécio, Dedé, Evaldo, Luiz Carlos Ismail e Wanderley. Sob a regência de Eduardo Lages, também já nosso entrevistado, eles formam a base para o sucesso de Roberto Carlos no palco.

* Quando começou o seu interesse pela música?
B – Eu fui um garoto muito pobre, perdi meus pais muito cedo e fui criado por minha avó e por minha tia. Essa tia, irmã do meu pai, tinha uma padaria, e os meus três primos, filhos dela, eram músicos. Isso por volta de 1940. Eles sempre tocavam em nossa casa e aquilo era a única distração que tínhamos na cidade, na Paraíba, bem no sertão do Nordeste. Quando eu tinha de 12 para 13 anos, um dos meus primos, Epitácio, começou a me ensinar a tocar trumpete. Gostei e não larguei mais.

* Quando começou sua carreira profissional?
B – Em 1942 um tio meu, que era da Polícia Militar de João Pessoa, mandou me buscar para estudar e me colocou trabalhando como ajudante de torneio mecânico. Eu disse que aquilo não era o que eu queria, que minha vontade era ser músico e que queria entrar para a banda da Polícia Militar. Ele me liberou para ser militar e com isso entrei para a banda. Com o mestre da banda aprendi muito, principalmente teoria musical. Em 1945 os músicos da Orquestra Tabajaras vieram para o Rio e abriram vagas para uma nova orquestra. Esse foi o meu primeiro contrato profissional como músico. Depois toquei na Rádio Jornal do Commércio, em Pernambuco, fui para Salvador, voltei para o Recife e, então, vim para o Rio. Cheguei no dia 3 de fevereiro de 1959, com 23 anos. No Rio, um dos meus primeiros empregos foi na Rádio Nacional, onde conheci Roberto Carlos.

* Então seu primeiro contato com o Roberto Carlos aconteceu há muito tempo?
B – Muito. Lembro-me bem dele participando dos programas do Jair de Taumaturgo, sempre acompanhado do Carlos Imperial. Acho que na época o Roberto ainda nem tinha gravado disco, mas já tinha talento. Depois gravei muito com ele, na época da Jovem Guarda, nos estúdios da CBS, na Rua Visconde do Rio Branco, no Rio. Toquei muito nos primeiros discos dele e também com muita gente da Jovem Guarda. Recordo com muito carinho do seu Evandro Ribeiro, que era o produtor dos discos.

* Era bom gravar com o Roberto naquela época?
B – Gravar com o Roberto é sempre bom, mas nós que tocávamos instrumentos de sopro não gostávamos muito da Jovem Guarda, pois havia pouco emprego para nós. A maior parte das músicas daquele tempo era apenas com guitarra, baixo e bateria. Depois surgiram os teclados.

* Que música você se lembra de ter gravado com Roberto Carlos?
B – Sou ruim de memória e agora não me lembro bem. Sei que tocava muito trumpete e trombone nas gravações dos discos dele nos anos 60. Mais tarde, já nos anos 70, participei da gravação de “O show já terminou”, com o arranjo de Chiquinho de Moraes.

* Na época vocês eram muito jovens. O clima era profissional?
B – Muito. Quase sempre chegávamos aos estúdios às nove horas da manhã e ficávamos gravando com o Roberto até às três da madrugada. No dia seguinte era a mesma rotina. O bom é que ganhávamos uma “nota violenta”. Roberto sempre foi um cara de bom coração.

* A generosidade do Roberto Carlos sempre cativou as pessoas, não é verdade?
B – Sem dúvida. Eu me lembro que numa viagem que fizemos a Porto Rico, isso já nos anos 80, tive a oportunidade de conversar com ele e disse que ele só conseguiu todo o sucesso que tem por ser a mesma pessoa simples e humilde desde o início da carreira. Depois que falei que queria falar ele começou a chorar. Roberto não mudou nada, é o mesmo sujeito simples. Um exemplo é que nunca o vi de terno e gravata. Ele está sempre de calça jeans, bem simples. Eu sou até suspeito para falar porque trabalho com ele. Para mim ele é fora de série, e durante todos esses anos eu nunca o vi aborrecido. Sei que quando ele se aborrece fica bravo, mas nunca chegou perto de nós dando bronca. Quando faz reuniões com a gente e elas chegam ao final nós temos até vontade de continuar a conversa para conviver um pouco mais com ele.

* Quando surgiu o convite para tocar na banda do Roberto Carlos?
B- Foi no primeiro show que ele fez no Canecão, em 1970. Era uma banda enorme, com quase 50 músicos, sob a direção do maestro Chiquinho de Moraes e o conjunto RC-7. Eu tive o privilégio de fazer todos os shows do Roberto no Canecão, e estou tocando com ele até hoje. Um dos primeiros shows do Roberto teve a participação do Quinteto Villa-Lobos.

* Hoje em dia Roberto leva a banda completa em suas turnês. Nos anos 70 ele levava todos os músicos?
B – Não, ia apenas o RC-7 e a produção contratava profissionais das cidades para cordas e sopros. Só que isso passou a ficar complicado porque quando chegávamos às cidades Roberto tinha que ensaiar com os músicos locais. Por isso acabou ficando mais fácil levar os profissionais daqui. Daí começou a haver um outro problema que foi o do alto custo. Com as dificuldades financeiras do país estava ficando muito caro viajar levando cinqüenta pessoas. Então, com a competência do Eduardo Lages, as cordas começaram a ser substituídas por teclados. Foi quando o Tutuca passou a trabalhar conosco.

* Não é uma situação delicada substituir músicos por teclados?
B – É, e se pudesse Roberto Carlos tocaria com uma big-band, igual ao Frank Sinatra, mas a crise financeira em todo o mundo, especialmente no Brasil, não permite mais que se viagem com tanta gente. Mesmo assim a produção do Roberto envolve cerca de setenta pessoas, pois além dos músicos tem o pessoal que trabalha nos bastidores.

* Fora do palco, vocês têm uma convivência estreita com Roberto Carlos?
B – Conversamos muito, ele trata todo mundo da mesma maneira. Eu não fico ligando para a casa dele para conversar, para não atrapalhá-lo, porque sei que é muito ocupado e não pode ficar atendendo todo mundo.

* Atualmente você grava com o Roberto?
B – Ele passou muito tempo gravando no Exterior e agora voltou a gravar no Brasil, e já tem os músicos de sua preferência para estúdio. Como vocês sabem, em 1998, já com a Maria Rita adoentada, ele só conseguiu gravar quatro músicas. Um dia ele conversou com os seus músicos, explicou a dificuldade que estava tendo para lançar o disco e disse que iria gravar os shows pois, se precisasse, colocaria algumas músicas ao vivo no CD, nos pagando pela participação. O CD acabou saindo com seis músicas ao vivo.

* Há a possibilidade do RC-9 participar das gravações em estúdio daqui para a frente?
B – Quando Roberto Carlos começou a pensar no disco do ano passado, que infelizmente não saiu com músicas inéditas, o Eduardo Lages havia conversado com a gente dizendo que queria fazer três músicas com toda a banda, no estilo do Glen Muller, de quem gosta muito. Com certeza ele tem competência para isso.

* Qual foi o momento mais emocionante que você viveu no palco com Roberto Carlos?
B – Todos os momentos foram muito emocionantes. Dividir o palco com Roberto é um prazer muito grande. Quando estou lá em cima começo a prestar atenção nele cantando e fico super emocionado. As músicas do Roberto, principalmente as antigas, me emocionam muito.

* Mas houve algum show especial?
B – Eu me lembro de um show no interior do México, em homenagem ao grande cantor Pedro Vargas. Estavam os dois filhos dele na plateia. Ele não pode ir porque estava muito doente e em cadeira de rodas. Depois do show Roberto foi visitá-lo em casa. Foi uma homenagem maravilhosa.

* Todos os músicos são contratados do Roberto Carlos?
B – Não, somente quatro são contratados: Dedé, Norival, Aristeu e Clécio. Os outros são prestadores de serviços, como eu, e, por isso, só ganhamos quando há show. Ano passado tivemos poucos espetáculos mas este ano, se Deus quiser, logo estaremos fazendo shows e “iremos à forra” desse tempo parado

* Qual o público mais caloroso do Brasil?
B – Todos recebem Roberto Carlos com muito carinho, mas em Recife é bonito ver o Ginásio Geraldão lotado. É sempre assim todas as vezes que o Roberto vai cantar em Recife. Também vale lembrar os mineiros. É impressionante ver o público que lota o Mineirinho. Mas em todas as cidades Roberto é recebido com muito carinho.

* Com você se sente dividindo o palco com Roberto Carlos?
B – Muito satisfeito, muito feliz. Quem trabalha com Roberto Carlos é sempre respeitado, admirado. Eu sou muito simples na minha maneira de ser, de viver, gosto muito de estar no palco com ele, mas não fico deslumbrado.

* Você é reconhecido nas ruas como integrante do RC-9?
B – Bastante. Na época dos Especiais de final de ano, na Globo, me dizem: “Vi você na televisão!” Tem muita coisa sobre Roberto Carlos que meus conhecidos sabem primeiro do que eu. São essas pessoas que sempre me contam alguns detalhes que eu que trabalho com ele nem fico sabendo. Isso é bom porque, afinal de contas, temos um pouco de vaidade apesar de viver uma vida modesta.

* Como é a reciprocidade dos shows do Roberto Carlos no Exterior?
B – Às vezes até maior do que aqui. Em muitos locais até me surpreendo como carinho do público. A colônia latino-americana tem uma verdadeira paixão pelo Roberto. Eu já o vi várias vezes saindo de cidades escondido no carro para passar no meio da multidão de fãs. Tenho saudades das viagens pelo Exterior.

* Qual a sua opinião sobre o músico Roberto Carlos?
B – Ele é muito musical. Se alguém tocar uma nota diferente do que ele quer ele percebe na hora. Ele canta suas músicas de uma maneira toda peculiar, que só ele mesmo sabe. Ele tem uma independência de compasso que dá a impressão de que está atravessando, mas ele sempre chega no final da frase na hora certa. É um dom.

* Ele é muito exigente no palco?
B – Ele exige muito do som, se acha que sua voz está diferente, com problemas de eco, graves ou agudos, ele exige muito dos operadores. Dos músicos ele não exige muito, nunca reclama diretamente conosco. O artista, seja ele quem for, nunca deve falar com o músico; deve falar com o maestro. Também é difícil a banda errar porque está tudo escrito na pauta e há músicas que tocamos há mais de dez anos.

* Sobre essa exigência com o som, já aconteceu de ele interromper o show para acertos?
B – Várias vezes, mas sempre de uma maneira muito educada. Ele se desculpa e pede uns dez minutos para acertar o som. Todo mundo fica esperando.

* Qual música do Roberto Carlos é a sua preferida?
B – É “Emoções”. Ela tem um arranjo perfeito, muito bonito, num estilo big-band. Mas gosto de tocar todas as músicas. O que me agrada muito em “Emoções” é o arranjo.

* Houve alguma diferença na mudança do Chiquinho de Moraes para o Eduardo Lages na direção dos shows?
B – Não houve uma grande diferença, porque os dois têm estilos bem parecidos. A diferença maior foi quando a banda foi reduzida. À medida que o número de músicos começou a diminuir, isso já no show “Emoções”, em 1982, no Canecão, foi preciso o Eduardo adaptar os arranjos. Antes tínhamos quatro trombones, agora só temos um; havia quatro trumpetes, hoje são dois. Então tudo teve que ser adaptado. Claro que fica diferente mas, como tem dois teclados do Tutuca e do Sérgio Carvalho, não dá para o público perceber essa diferença.

* Como é o carinho do público com vocês da banda depois dos shows?
B – É uma coisa maravilhosa. Quando deixamos o local do show as pessoas vêm nos elogiar, falar que a orquestra é maravilhosa. A verdade é que tocamos juntos há muito tempo. * Dá para perceber que há uma verdadeira amizade entre vocês da banda.

B – Graças a Deus. Músicos são sempre unidos. Não existe politicagem, cada um faz o seu trabalho e pronto. O fato de estarmos há muito tempo tocando com o Roberto também conta. Alguns trabalham com ele há quase quarenta anos. Os poucos problemas que ocorrem são logo resolvidos. Graças a Deus nunca em minha vida tive problemas com nenhum colega. * Que momentos engraçados da plateia você já presenciou no palco?
B – Roberto tem um fã em São Paulo que é dono de uma auto-escola. O rapaz até tem uma boa condição financeira. Todas as vezes que o Roberto encerra a músicas “Outra vez”, quando ele dá aquela paradinha no final da música, esse rapaz sempre se antecipa do resto da plateia e canta “...outra vez”. Mas como ele canta desafinado! Fica difícil conter o riso, até o Roberto já brinca com ele. Outro fato curioso é o número de pessoas que aparecem nos shows se achando parecidas com o Roberto Carlos.

* Roberto Carlos é uma pessoa iluminada no palco?
B – Não só no palco, mas em toda a sua vida. Mas quando ele entra no palco é uma pessoa totalmente diferente, ele hipnotiza todo mundo. As pessoas se emocionam, choram com ele. Lá de cima do palco dá para perceber o número de jovens que vão aos shows, meninas que nem chegaram a conhecer a Jovem Guarda e que cantam as músicas daquela época.

* Como você observa a simplicidade do Roberto Carlos sendo ele um mito da MPB?
B – É por isso que ele é um mito. Ele é simples mesmo. Se um dia entregarem o mundo para ele governar ele será a mesma pessoa. Ele não gosta que o tratem como Rei, fica todo sem jeito e diz que Rei é Deus. Os próprios artistas o encaram dessa maneira. Outro dia ouvi o Lulu Santos falar que “o Roberto Carlos já ultrapassou o patamar de Rei”.

* Quando você está em casa descansando costuma ouvir discos do Roberto Carlos?
B – Sempre, até porque minha mulher está sempre ouvindo Roberto Carlos. Nós temos aqui em casa quase todos os seus discos. Eu até brinco porque, de tanto ouvir, seja em casa ou no palco, há músicas que já sei de cor. Quando no final do ano passado foi lançada a coletânea “30 Grandes Sucessos”, a Carminha, secretária do Roberto, mandou um disco para cada um dos músicos, e a minha mulher chegou a ficar emocionada ao ouvir as músicas antigas.

* Você sofre com alguns fãs que usam o músico para tentar chegar perto do artista?
B – A maioria faz isso, mas eu fico meio afastado. Alguns músicos da banda são mais conhecidos e sofrem mais esse tipo de assédio. Levar uma pessoa até o Roberto não é fácil, então para evitar levar um “não”, prefiro ficar afastado.

* E as críticas que Roberto Carlos sofre no lançamento de cada disco e de cada show? O que você acha?
B- Isso é natural. Se você for dar importância a críticos musicais no Brasil vai perder o seu tempo, porque nenhum deles sabe nada de música. Eles estão apenas querendo apresentar serviço. O cara, para criticar uma coisa, tem que saber mesmo, estudar, e é só você reparar que os artistas mais criticados são exatamente os que mais vendem.

* No ano passado vocês fizeram muito poucos shows. O que deu mais saudade nesse tempo em que ficaram parados?
B – Tudo deixou saudades: a convivência com os colegas, estar no palco tocando... Também foi um tanto difícil deixar de ganhar o que estávamos habituados. Eu e estou acostumado a ficar viajando e como fiquei muito tempo em casa nesse ano que passou acabei me sentindo um parasita. Até fiquei um tanto barrigudo!

* Para você, como Roberto conseguirá superar esse momento tão difícil que ele está passando?
B – Com muita fé. Roberto já passou por diversas fases difíceis na sua vida, e eu tenho certeza de que ele irá superar mais essa. A pessoa muito religiosa, como ele, consegue superar as barreiras com mais facilidade. Ele é uma pessoa muito boa, e no meu modo de ver as coisas ele está sento testado. Roberto Carlos vai vencer porque acredita em Deus.

* Como surgiu a história do balde?
B – Essa brincadeira começou entre o Roberto e o Tutuca, que desde cedo tem cabelos brancos. Um dia Tutuca disse para o Roberto que a primeira vez que pintou o cabelo mergulhou a cabeça num balde. Durante a apresentação dos músicos nos shows Roberto brinca com todos que pintam o cabelo. E põe gente nisso!

* E a história do cacique Barreto?
B – O Roberto gosta muito de índios e nasceu no Dia do Índio, 19 de abril. Numa das nossas viagens eu contei a ele que sou neto de índia, aí ficou a história do cacique.

* O que significa para você tocar com o Roberto Carlos?
B – Significa tudo. Já toquei em tudo que é lugar, com grandes nomes da música brasileira, e tocar com ele é o coroamento da minha carreira. As pessoas acham que tocar com Roberto Carlos significa que você é um bom músico. Às vezes nem é bem assim, mas isso dá um tremendo status. Com certeza vou encerrar a minha carreira no RC-9, pois o dia em que sair de lá não toco com mais ninguém.

* Como você define Roberto Carlos?
B – O máximo como ser humano, como artista, querido por todos. É impossível encontrar alguém que faça restrições ao Roberto Carlos. Pode haver alguém que não goste dele como cantor ou como compositor, mas nunca ele deixará de ser ídolo do povo, porque a música romântica nunca sairá da moda. Ele, como ser humano, é maravilhoso! Antes de tocar com ele eu já o achava fora-de-série, agora então, convivendo com ele, o acho o máximo.


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