DIRONIR
entrevista a Carlos Eduardo F.Bittencourt
exclusiva para o Grupo Um Milhão de Amigos

08/fevereiro/2003




Dironir de Souza, saxofonista e flautista, integrou a banda RC desde o início dos anos 70. Neste novembro de 2008 ele partiu da Terra e foi encontrar na Vida Eterna outros antigos companheiros do palco, como Evaldo e Barreto. Em sua homenagem, relembramos sua entrevista exclusiva ao Grupo Um Milhão de Amigos.

CE- Como você começou a carreira e como entrou para a banda do Roberto Carlos?
D- Profissionalmente, eu comecei em 1955, e faço parte da banda do Roberto há trinta anos. Sou um dos mais antigos do RC-9. Dos atuais músicos da banda só o Dedé, o Wanderley e o Clécio estão há mais tempo do que eu.

CE– Quem fez o convite para você ser músico do Roberto Carlos?
D– Sinceramente, não me lembro quem me convidou. Eu soube que Roberto estava precisando de um saxofonista, e me levaram até ele, fiz um teste, uma espécie de ensaio, e fui aprovado.

CE- Você chegou a participar dos programas da Jovem Guarda?
D- Com Roberto Carlos não, mas eu participei acompanhando o Erasmo Carlos, pois antes de tocar com o Roberto eu fazia parte da banda do Erasmo, “Os tremendões”. Foram poucos programas, pois o programa "Jovem Guarda" já estava no final.
CE- Nesses trinta anos, você chegou a sair alguma vez da banda do Roberto Carlos?
D- Não, eu nunca sai da banda desde a primeira vez em que toquei com Roberto, inclusive o acompanhei em todas as viagens pelo Brasil e pelo Exterior.

CE- O RC-7, a banda do Roberto Carlos na época, participou do filme “Roberto Carlos em ritmo de aventura”. Pelo que você nos contou, você ainda não fazia parte da banda.
D- Não, eu acho que ele fez o filme no final dos anos 60, e eu só entrei na banda no início dos anos 70.

CE- Como é Roberto Carlos como patrão?
D- A melhor maneira que eu tenho para responder a essa pergunta são os trinta anos que estou com ele, e para você ficar tanto tempo num emprego tem que se sentir bem. É só reparar que são poucos os músicos que estão há menos de dez anos na banda, então não tenho que me queixar do Roberto Carlos como patrão. Há um respeito mútuo entre a gente.

CE- Você sente falta da época em que Roberto Carlos tinha uma maior convivência com seus músicos fora dos palcos?
D- Antigamente o contato era maior, mas os tempos eram outros. Viajávamos com mais freqüência e nessas viagens há uma maior aproximação. Em anos anteriores, chegamos a ficar dois meses fora de casa fazendo shows no Exterior. Isso proporciona uma maior convivência entre os músicos e a equipe. Hoje Roberto tem outros compromissos, é uma pessoa bem mais ocupada e a sua rotina de trabalho nos distanciou um pouco. Ele tem a sua própria maneira de levar a vida, diferente da que tinha antes, mas nós também éramos diferentes, não foi só ele quem mudou; nós também mudamos. Mas quem pensa que antigamente convivíamos diariamente está enganado. O contato só era maior por causa das viagens. Hoje Roberto mora no Rio e eu moro em Curitiba, parte da banda é do Rio, outra parte é de São Paulo, e essa distância faz com que os nossos encontros sejam apenas nos palcos. É claro que existe um bom relacionamento do Roberto Carlos com seus músicos, mas não existe o contato diário.

CE- Como é a convivência entre vocês do RC-9?
D- O relacionamento é bom, afinal são muitos anos de convivência. Quando estamos viajando nos encontramos nos bastidores dos shows, no hotel, na piscina, no restaurante, no carro, e isso proporciona uma maior aproximação. Mas é claro que como toda família há uns que se dão melhor com outros. Se em famílias há irmãos que não têm bom relacionamento, não vai ser numa banda que você exigirá uma amizade perfeita entre dezesseis, dezessete pessoas.

CE- Roberto diminuiu muito o número de shows depois de 1999. Como você convive com essa rotina atual?
D- Não quero colocar como uma reclamação, mas não posso dizer que esteja sendo bom. Está sendo difícil já que eu não sou contratado do Roberto Carlos. Eu trabalho por cachê, só recebo quando faço shows, e quando não faço shows fico sem receber. Em 1999, quando Roberto Carlos ficou quase todo o ano afastado dos palcos, eu passei por dificuldades financeiras, tive que vender o meu carro e o carro das minhas filhas. Alguns músicos do RC-9 são contratados e recebem todo mês, fazendo shows ou não, mas a maioria trabalha com cachê. A minha família depende do meu trabalho, e eu adoro trabalhar, estar no palco fazendo shows. Agora mesmo nessa temporada que estamos fazendo no Rio, a princípio seriam seis shows, mas o show do dia nove de fevereiro foi cancelado. E eu estou acostumado a trabalhar com Roberto, são trinta anos viajando, conhecendo o Brasil e o mundo, sinto falta disso. O jeito é ficar esperando por dias melhores. Sei que virão.

CE- Fica difícil conseguir outro emprego nesse período em que Roberto não está fazendo shows?
D- Fica. Eu não posso assumir compromisso com outro cantor porque fica sempre a dúvida se Roberto Carlos irá fazer algum show nesse período. Então eu tenho que recusar, e o artista também evita me contratar porque não sabe se contará comigo durante toda a temporada. Qualquer pessoa que contrata um profissional, seja músico ou não, quer a garantia do trabalho. Como eu posso dar essa garantia? Muitas vezes o escritório do Roberto me liga mandando eu ir correndo para o aeroporto pegar um avião porque ele está precisando de mim. Como eu posso assumir outro compromisso nessa incerteza?

CE- Você chegou a gravar muitos discos com Roberto Carlos nos anos 70?
D- Eu fiz algumas participações quando comecei a tocar com ele, mas foram poucas. Eu participei mais dos discos ao vivo. No CD que ele lançou no ano passado eu participei na música “Seres humanos”, e também nas músicas gravadas no show do Aterro do Flamengo.

CE- Você disse que entrou na banda do Roberto Carlos no início dos anos 70. Você chegou a acompanhá-lo no seu primeiro show no Canecão?
D- Não, eu participei do segundo show, “Roberto Carlos além da velocidade”, em 1973. Na época a orquestra era regida pelo maestro Chiquinho de Moraes.

CE- Já que falou do Chiquinho de Moraes, qual a diferença entre ele e o Eduardo Lages?
D- Os dois são excelentes maestros, e contribuíram muito para a carreira do Roberto, mas cada um tem uma característica própria. O Chiquinho é mais agressivo nos arranjos e o Eduardo é mais romântico, por isso seu estilo se casou tão bem com o estilo do Roberto Carlos. Cada maestro tem uma maneira própria de sentir a música, mas o valor de cada um é muito grande. O Chiquinho usa um som mais pesado e o Eduardo tem um estilo mais romântico, mas a música que Roberto Carlos fazia nos anos setenta se encaixava bem com o estilo do Chiquinho de Moraes, pois era mais “pauleira”, mais agressiva. Dos anos 80 para cá o Roberto adotou um estilo mais romântico.

CE- O que tantas viagens internacionais com Roberto Carlos acrescentaram à sua vida e à sua carreira?
D- Foram experiências indescritíveis. Fica difícil contar o que senti, e ainda sinto, em cima do palco com aquela energia toda que o público estrangeiro nos passa. Casas de shows lotadas para ver Roberto Carlos cantando, e o que me deixa orgulhoso é saber que eles estão aplaudindo um artista estrangeiro. E se eu sinto essa energia, imagine o que o Roberto Carlos não sente! Outra experiência que antigamente marcou nossas viagens com Roberto Carlos foi a união dos músicos brasileiros com os estrangeiros. Várias vezes a produção contratava músicos estrangeiros, principalmente os profissionais das cordas (violinos, violas, cellos) para os shows, e era gratificante aquela mistura de músicos brasileiros com estrangeiros. Em cada cidade eram novos músicos que se uniam a nós e novas experiências.

CE- Existe uma ansiedade maior ao se apresentar para uma grande platéia, fazer um show ao ar livre, por exemplo?
D- Existe sim, porque um show ao ar livre é mais popular do que numa casa de espetáculos, onde o público é mais requintado, às vezes até mais frio nas suas manifestações de carinho. Já ao ar livre, o público é mais caloroso. No show que Roberto Carlos fez no Rio, no ano passado, vários fãs dormiram no Aterro apenas para ficar mais perto possível do palco. Isso é uma grande demonstração de carinho e é uma emoção diferente a que esse tipo de show nos passa.

CE- Até que ponto você fica magoado com as críticas negativas de alguns jornalistas sobre o trabalho do Roberto Carlos?
D- Eu não me preocupo nem um pouco com isso e acho que nem o Roberto se preocupa. Cantar música romântica é uma marca do Roberto Carlos. O que eles querem? Que o Roberto mude seu estilo? Aí não seria o Roberto Carlos que todos nós conhecemos e que tem conquistado tantos fãs. Acho que as pessoas que tanto criticam deveriam prestar mais atenção na sua mensagem, no conteúdo das letras. Estas pessoas têm má vontade com o trabalho dele. Às vezes nem escutam todo o disco, escutam apenas pedaços de uma ou duas faixas e julgam todo o trabalho.

CE- Qual é a rotina de vocês num dia de show?
D- Quando o show é em casa fechada, como o ATL Hall, nós temos que chegar cedo para passar o som. Saímos do hotel por volta das 19 horas e uma hora depois estamos no palco. A passagem de som é feita com antecedência porque a casa abre duas horas antes do horário marcado para o espetáculo. Depois somos liberados. Quinze minutos antes do horário marcado temos que estar prontos, vestidos, mesmo sabendo que o show nunca começa na hora. Agora, nos shows ao ar livre, como o do Aterro, por exemplo, nós fazemos a passagem do som na noite da véspera.

CE- Antes dos shows, vocês da banda chegam a ensaiar alguma música com Roberto Carlos?
D- Algumas vezes sim. Antes do primeiro show no ATL ensaiamos com ele a música “Seres humanos”, que entrou no roteiro. Já houve ocasiões durante uma temporada em que o Roberto Carlos pediu que nós chegássemos cedo para repassar determinada música de que ele não estava gostando. São pequenos acertos.

CE- Você é muito reconhecido nas ruas por ser músico do Roberto Carlos?
D- Bastante, são pessoas que eu nem conheço que me cumprimentam, sabem o meu nome. Por um lado é bom, mas por outro é ruim, primeiro porque você perde a sua identidade, eu nunca sou o Dironir, sou sempre o músico do Roberto Carlos. Outro inconveniente é que muitos fãs pensam que temos livre acesso ao Roberto Carlos e vão para a porta do hotel, me param nas ruas e pedem que eu consiga um autógrafo do Roberto Carlos ou levá-los ao camarim, como se isso fosse fácil. Imagine se eu vou bater na porta do camarim do Roberto e pedir para ele dar um autógrafo para um fã que me pediu? Em certas ocasiões ser reconhecido é bom para o ego, mas em outras eu prefiro ficar no anonimato.

CE- Como é a sua participação no show fazendo o solo de sax em “Parei na contra-mão”? Até que ponto isso é normal em sua carreira?
D- Teve que se tornar normal no começo, mas não foi. Nós estávamos no início da tournée no Sul, e um dia Eduardo Lages bateu na porta do meu quarto e me avisou que o Roberto tinha decidido cantar a música “Parei na contra-mão” e que eu ia fazer o solo ao lado dele, que eu teria que sair do meu lugar para dividir o centro do palco com Roberto Carlos. Olhe que responsabilidade! Em poucas horas eu tive que ouvir o CD e criar um solo parecido com o que Milton Guedes fez no disco acústico. Uma coisa é você fazer um solo no seu lugar, no canto do palco; outra é ficar ao lado do Roberto. Foi difícil, porque a energia que ele transmite é muito forte e no início deu um certo nervosismo, mas tive que superar tudo isso.

CE- Os fãs do Roberto sentem da platéia essa energia de que você falou. No palco vocês também a sentem?
D- Não resta dúvida, principalmente na parte do show em que faço o solo de “Parei na contra-mão”. Não sei se nesse momento eu fico um pouco retraído por ter que dividir o centro do palco com ele, ficar ao lado daquele que chamam de “Rei”. A presença dele me tranqüiliza, por isso falo que Roberto tem uma energia que passa a todos os que estão no palco e na platéia.

CE- De tantos shows que você já fez com Roberto Carlos, houve algum especial, que você considere inesquecível?
D- Foram tantos shows que não me lembro, mas na verdade todos os shows eu considero especiais, não há como separar uma situação da outra, uma apresentação da outra. Subir no palco e ver milhares de pessoas na sua frente na expectativa de ver Roberto Carlos cantar é sempre uma emoção, principalmente porque nós fazemos parte do show. Eu poderia citar alguns locais interessantes em que nos apresentamos, principalmente no Exterior, grandes palcos, milhares de pessoas, mas todo show é especial. Houve alguns shows que me marcaram, mas foram épocas diferentes. Eu prefiro viver o momento atual e este momento está bom, esta temporada está muito bonita.

CE- Você imaginava conhecer tantos países como acabou conhecendo por viajar com Roberto Carlos?
D- Nunca! Foram muitos países, capitais e cidades do interior, e apesar dos shows sempre sobrava um tempo para conhecer os lugares, fazer umas comprinhas. Com certeza eu nunca conseguiria visitar todos esses lugares se tivesse que ir por conta própria.

CE- Em casa, você costuma ouvir discos do Roberto Carlos?
D- Ouço. Há músicas do Roberto que gosto de ouvir, e minha mulher também gosta das músicas dele. Eu também gosto de ouvir as minhas participações nos discos. Às vezes me dá vontade de ouvir determinada música que toquei e coloco o CD no aparelho, mas não é freqüente ouvir o disco todo; apenas determinadas músicas que estou com vontade de ouvir na ocasião.

CE- Como você define Roberto Carlos?
D- Se eu não consigo encontrar uma definição para mim, fica difícil definir outra pessoa, mas Roberto é uma pessoa muito legal, sempre me tratou muito bem nesses trinta anos de trabalho, me proporciona fazer o que eu gosto, que é tocar, e a oportunidade de sustentar a minha família com o meu emprego. Se hoje estou sendo entrevistado por você, se sou reconhecido nas ruas, isso devo ao Roberto. Tudo que tenho devo ao Roberto Carlos.

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