DODY SIRENA
entrevista a Andréa Martins
para a revista Meio e Mensagem

25/maio/2009



Dody Sirena: dos bailinhos no Sul a empresário do Rei
Dody Sirena, da DC Set, é o homem à frente da agenda de shows de Roberto Carlos. O cantor e compositor teve até abril de 2010 um ano inteiro de comemorações pelo cinquentenário de sua carreira. Sirena conta como vem administrando nos últimos 16 anos a carreira do maior cantor da música brasileira e porque não teve dificuldade de conseguir patrocínios para a maratona de shows.
O administrador do rei
Ele trouxe para o Brasil vários shows internacionais de peso quando o País nem sonhava entrar na rota das turnês mundiais. No início da década de 80, Dody Sirena lotou o estádio do Morumbi com um espetáculo do Queen, um marco para a época. Rod Stewart, Ray Charles, Michael Jackson e Guns N’Roses, entre outras superproduções, vieram depois. Gaúcho de Caxias do Sul, o empresário de 49 anos é o número 1 do show business nacional e conquistou a confiança do maior ídolo da música brasileira – Roberto Carlos. Há 16 anos comandando os negócios do artista, Dody Sirena conta detalhes da megaoperação para comemorar o cinquentenário da carreira do rei Roberto. À frente da DC Set Produções, o “rei” do entretenimento também faz a gestão da imagem do técnico Luis Felipe Scolari e os festivais Planeta Atlântica e Lupa Luna, em uma trajetória de três décadas que começou com bailinhos no Sul do Brasil.


M&M – Do começo, organizando bailes e festas no Sul até o Queen. Como foi esse salto, em uma época que não tínhamos no Brasil grandes shows, com grandes bandas?
DS – O ano em que o Queen aterrissou no Brasil foi 1981, mas as negociações começaram antes, em 1979 ou 1980. Em uma coluna social do Zózimo, no Jornal do Brasil, saiu uma nota que dizia que o empresário do grupo estava no Rio de Janeiro com uma gravadora, vendo a possibilidade de trazer o Queen. Eu tive a ousadia de ligar para o hotel, me apresentar como um grande empresário, apresentar Porto Alegre – o Brasil não estava no roteiro dos grandes shows, imagina Porto Alegre – e conseguimos, eu e o Cicão Chies (seu sócio até hoje) fazer um contato. Levamos o empresário para lá – compramos a passagem em dez vezes, ele nunca soube disso – e passamos a imagem de uma empresa muito sólida financeiramente, com grande suporte. E acho que convenceu, porque deu tudo certo.

M&M – Mas o show foi no Morumbi...
DS – Hoje os estádios de futebol – e os clubes que os administram no mundo inteiro – ficam buscando alternativas para fazer uso do espaço. Mas naquela época, nas décadas de 70 e 80, era uma afronta propor um evento musical em um estádio. O lugar era sagrado para o futebol, a grama era intocável. É verdade que não havia uma tecnologia de proteção de gramado como há hoje, podendo ser montada e desmontada em dois dias. Então, Porto Alegre ficou fora do roteiro, porque nós fechamos o contrato com o Queen – que era o mais difícil – acertamos as bases financeiras que não eram fáceis, e fizemos um pré-contrato como Sport Club Internacional para utilizar o estádio do Beira-Rio, mas o presidente do clube cancelou o acordo. Isso aconteceu nas outras cidades também e, por isso, ficaram só dois shows no Morumbi. Era um marco. O Queen seria hoje como Madona, Rolling Stones. A partir daí nós investimos fortemente na área internacional e montamos um escritório em Los Angeles – foi outro atrevimento – com a intenção de contratar outros artistas. Eu não falava uma palavra em inglês naquela época. Tínhamos um endereço em Beverly Hills, no metro quadrado mais caro da cidade, simplesmente para negociar e tentar contratar os artistas e vir para o Brasil, que na época era visto como uma selva, o país da Floresta Amazônica. Negociamos muitos artistas, tivemos vários problemas e, obviamente, tivemos de fechar. Tudo era um atrevimento e uma ilusão, mas serviu para estruturar toda a nossa fase. A DC Set, até o início dos anos 90, realizava 80% dos shows internacionais que vinham para a América do Sul.

M&M – Você trabalha há 16 anos como empresário do Roberto Carlos. O que Dody Sirena acrescentou à carreira do cantor?
DS – Quando comecei minha relação com o Roberto eu tinha a pretensão de fazer muitas mudanças. A primeira coisa que fiz foi contratar uma pesquisa. E aí, para minha surpresa, tudo o que eu imaginava que devia propor de mudanças a pesquisa me mostrou o contrário. Primeira coisa: o cabelo. Eu achava que ele devia mudar o visual, não radicalmente, que é o que ele está fazendo agora (recentemente, Roberto Carlos cortou o cabelo). A pesquisa mostrava o contrário: uma das coisas que as fãs mais admiravam nele era aquele visual, aquele cabelo comprido. Eu também queria modernizar a banda, colocar músicos jovens. A pesquisa mostrou que um dos pontos que mais valorizavam no Roberto Carlos era sua fidelidade àqueles “velhinhos”, no bom sentido. A grande verdade é que eu cheguei com muitas ideias modernas, mas quando passei a trabalhar com o Roberto ele já tinha 34 anos de carreira, já era o rei. A minha contribuição foi a visão do negócio, transformar o sucesso em mais dinheiro, alavancando novas fontes de receita, mostrando um marketing focado, uma visão moderna, visando business. Eu acredito que minha contribuição – que consolidou nossa relação de confiança – foi a parte comercial e nenhuma interferência na questão artística.

M&M – Falando de novos negócios, como surgiu a ideia de fazer um cruzeiro com o cantor? Quais são as novidades do Projeto Emoções em 2010?
DS – Quando eu estava prospectando novos caminhos de marketing para o Roberto surgiu uma ideia. O Brasil tem um litoral extraordinário não explorado devidamente, é o momento inverso do verão europeu e norte-americano, e começou a ter trânsito importante de navios vindo para cá. Propus ao Roberto: “Quem sabe a gente não faz um fim de semana de emoções?” Algo que seria um sonho para os fãs. Achei que fosse difícil convencê-lo, por ser inédito, arriscado em termos financeiros, pois arrendar um navio já era uma ousadia. Foi difícil primeiro convencer uma empresa marítima a aceitar isso, mas tivemos a receptividade da Costa. E o Roberto, à frente de seu tempo, como sempre, não só topou o desafio de imediato como começou a participar intensamente de tudo. No primeiro ano, já foi um sucesso extraordinário, até pelo ineditismo. Já estamos indo para o sexto ano agora. Em 2010 haverá uma novidade: serão dois cruzeiros de quatro noites (de 30 de janeiro a 7 de fevereiro, os dois). Desde o primeiro ano temos o patrocínio exclusivo da Nestlé, que imediatamente adotou esse evento como estratégia de marketing de relacionamento. A Nestlé tem uma cota de cabines, convida seus principais clientes e, por ser a patrocinadora principal, realiza um coquetel com Roberto Carlos para os seus convidados. A partir deste ano começamos a abrir para algumas ações corporativas, com autorização da Nestlé.

M&M – Como você começou a penar nesse evento de um ano de duração para comemorar os 50 anos de carreira do cantor?
DS – Eu já vinha pensando nos “50 anos” há uns sete. Sempre “persegui” o Roberto com essa ideia de um show no Maracanã para ficar na história. A pergunta inicial era quando celebrar o cinquentenário. Havia várias datas que marcavam o início da carreira dele. Alguns jornalistas questionaram que deveria ser a partir dos nove anos de idade, quando ele cantou pela primeira vez em uma rádio. Ele deu a referência: “Quando ganhei meu primeiro cachê e fui reconhecido como cantor profissional”. Fizemos as contas e caiu em 2009. A programação começou em Cachoeiro de Itapemirim (ES), no aniversário dele. (19 de abril), e se estenderá até Nova York, em 19 de abril de 2010. Depois de Nova York, continuaremos em turnê internacional, mais dois meses por 18 cidades norte-americanas, realizando mais de 25 shows. Depois seguiremos para outros países da América Latina, como México, e também Portugal, Espanha, talvez Itália.

M&M – Como foram as negociações com Itaú e Nestlé para entrarem nessa homenagem a Roberto Carlos? Outros patrocinadores quiseram participar das comemorações dos 50 anos de carreira?
DS – A Nestlé, obviamente, o Roberto teve prazer em receber e aceitar o convite porque a empresa representa uma verdade para ele, ele consome os produtos, tem toda uma história com a marca desde criança. Ele conta que escondia a lata de Leite Moça dos irmãos para tomar aos pouquinhos. Mas eu estabeleci que precisávamos de mais parceiros nessa comemoração tão ampla. Na verdade, estou mal-acostumado, porque a gente não precisa bater muito à porta. Mas fui apresentar essa proposta de patrocínio ao Banco Itaú.

M&M – Por que escolheu o Banco Itaú?
DS – Porque o Roberto é correntista lá há mais de 30 anos, foi natural, e já tinha a relação do ano passado, quando o Itaú propôs fazer a celebração dos 50 anos da Bossa Nova, com show do Roberto com o Caetano Veloso. Por essas razões todas, o Itaú era um parceiro que considerávamos bacana. Mas o Nizan (Guanaes) brinca com isso até hoje: eu pedi uma reunião, o Nizan preparou o ambiente e a proposta ocorreu da seguinte forma: “Temos uma festa histórica de 50 anos de celebração do sucesso do Roberto Carlos e eu vim aqui vender uma entrada para a festa. Não há um programa, uma proposta escrita, um plano de mídia. Temos uma festa durante um ano e queremos convidar o Itaú para entrar na festa”.

M&M – Vocês divulgam o valor do evento?
DS – Não. Existe uma cláusula de confidencialidade, e tanto o Itaú quando a Nestlé não divulgaram o valor. Vale lembrar que o plano dos 50 anos inclui também o show Elas cantam Roberto (no dia 26 de maio, no Teatro Municipal de São Paulo), com toda a renda revertida para uma entidade voltada ao combate ao câncer de mama. Em agosto (dia 11), temos Roberto Carlos Rock Simphony, com artistas do rock pop interpretando músicas do cantor. Depois, em março de 2010, acontece o Emoções Sertanejas, com cantores sertanejos (os três eventos são beneficentes). O show do Maracanã será no dia 11 de julho, com transmissão para o Brasil e para o mundo através dos canais da Globo, ao vivo – há muito tempo o Roberto não faz um show ao vivo para TV. Tem ainda uma exposição que queremos estrear em 25 de janeiro, aniversário de São Paulo. Seria um presente para a cidade, que representa muito na carreira dele. Será na Oca (Parque do Ibirapuera), e vai transitar por toda a vida do Roberto.

M&M – Na sua opinião de especialista do setor, como está o mercado de show business aqui no Brasil? O País realmente entrou na rota dos grandes shows internacionais?
DS – Sem dúvida, o Brasil é hoje um mercado desejado pelos grandes artistas por várias razões. Uma delas é a questão geográfica, por estarmos do lado oposto do sol. As grandes turnês, que exigem show no ao livre, têm por tradição seguir o sol – Estados Unidos, Europa, Austrália, continente asiático. No Brasil, de novembro até maio é um período de grande oportunidade de extensão das turnês que já aconteceram na Europa e nos EUA. A questão da nossa economia – e do câmbio – tem favorecido também. Passamos a ter potencial extraordinário de poder de compra. Veja que o tíquete médio no Brasil é até maior do que nos EUA. As negociações com o mercado publicitário têm demonstrado resultados extraordinários. A atividade de show business passou a ser grande ferramenta de marketing e tem sido muito bem explorada pelos anunciantes de ponta.

M&M – A pirataria e a Internet mudaram o show business mundial? O artista, que antes vivia da venda de CDs e dos direitos das músicas, é obrigado agora a “botar o pé na estrada” para ganhar dinheiro. Temos visto a volta de muitas bandas dos anos 70, 80, como Kiss, Iron Maiden...
DS – Na minha opinião, isso não é reflexo da pirataria ou da diminuição da receita fonográfica. Acho uma tendência natural. O Brasil está há um bom tempo sem lançar uma nova tendência. Durante quase duas década, a cada dois anos vinha um novo movimento: axé music, rock, lambada, pagode universitário. Já estamos há um período longo sem novidades. Primeiramente, pela diminuição e pelo enfraquecimento da indústria fonográfica. Existem muitos talentos no Brasil e no mundo que não estão tendo oportunidades. Quando o mercado fonográfico era forte e consistente, tinha estrutura muito grande para prospectar novos talentos e lançá-los. A situação desse mercado está indefinida, mas há uma luz no fim do túnel. Acredito que há uma tendência de que, em futuro próximo, exista um mercado muito forte em termos de Internet, quando a questão do autoral for regulamentada. A telefonia celular será um mercado extraordinário, principalmente com a previsão no Brasil de em dois ou três anos termos 50 milhões, 60 milhões de aparelhos já recebendo sinal de banda larga e disponibilizando a programação da TV aberta. Eu acho que a telefonia celular pode ser um dos grandes caminhos de recuperação da indústria fonográfica e, talvez, com muito mais força do que era o seu modo convencional.

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