DUDU BRAGA
entrevista concedida a Alexandre Gaioto

06 de outubro de 2014




Dudu Braga, o "filhão" do "paizão" Roberto Carlos, um exemplo de alegria de viver,
de profissional sério atrás de um sorriso largo e de uma risada solta.
Cego desde os 22 anos de idade devido a um glaucoma congênito,
Dudu se adaptou à deficiência e fala abertamente sobre a cegueira e faz palestras sobre o tema.
Radialista, ele apresenta o programa "As Canções que Você Fez pra Mim", há 15 anos na Rádio Nativa FM

AG- A Nativa FM toca bastante sertanejo "universitário". Qual sua opinião sobre esse estilo musical?
DB- Eu gosto pra caramba, Gaioto. Os estilos musicais, com o tempo, sofrem mudanças. O próprio romantismo, que é o estilo que o meu paizão canta há anos, hoje foi substituído pelo sertanejo. Os cantores românticos de hoje são sertanejos. Gosto do Victor & Léo e Luan Santana. Puxa, acho o Luan sensacional. E tem aquele rapaz, como é mesmo o nome dele? Ah, não lembro. Mas tem o Eduardo Costa, que gosto pra caramba. E tem aquela música, como é mesmo? Peraí, deixe eu pegar o nome deles.... Como é mesmo aquela dupla do "domingo de manhã"? (comentando com alguém ao lado) Ah, Marcos & Belutti. As músicas dessa dupla são sensacionais.

AG- Você enxerga poesia no sertanejo "universitário"?
DB- Sim. Essa dupla mesmo, Marcos & Belutti, tem composições poéticas. "Te liguei no domingo de manhã": isso é poesia.

AG- Você dá palestras e apresenta um programa de rádio. Mesmo sendo filho do rei, sente a necessidade de se misturar aos súditos e trabalhar?
DB- Com certeza. Apresento meu programa na rádio, sobre as canções do meu paizão, há 14 anos. E adoro fazer isso. Tenho o maior orgulho de ser filho do meu pai. E faço as palestras "É Preciso Saber Viver", trabalho com a inclusão de pessoas deficientes há um bom tempo. Esse trabalho, aliás, meu pai acha muito bacana.

AG- Mas você não é totalmente cego, né?
DB- Do ponto de vista operacional, sim. O que eu consigo é distinguir se tem uma luz acesa ou não. Essa percepção, eu tenho. Mas, por exemplo, não consigo andar sozinho. Não enxergo os objetos à minha frente.

AG- Falando agora do seu pai, Dudu. Você acha que, futuramente, Roberto Carlos seria capaz de liberar o álbum "Louco Por Você"?
DB- O problema desse álbum é que é de outra gravadora. Hoje, esse disco é da Universal. E meu pai é da Sony Music. É uma questão das gravadoras conversarem. Eu acho que a gravadora não tem as fitas originais para remasterizar esse álbum de novo. E meu pai, você sabe o quanto ele é perfeccionista, certamente ia querer mexer naquilo de novo, equilibrar o som, usando os recursos da tecnologia atual. Mas acho que se o CD saísse pela Universal, seria mais para um registro mesmo.

AG- Muitos críticos dizem que esse é um dos melhores álbuns do seu pai. Você concorda?
DB- Não acho que seja o melhor da carreira dele. O melhor é o de 1971 ("Roberto Carlos").Meu pai cantando bossa é sensacional. Mas ainda prefiro esse outro, que tem "Detalhes". Muitos fãs criticaram a participação de seu pai na propaganda da Friboi, e a imprensa não o poupou de críticas e ironias. Ele se assustou com esse retorno negativo? Ele não se assustou. O que acontece é o seguinte: hoje, as redes sociais estão aí e as pessoas estão mais para falar mal do que bem das coisas que surgem. Então, faz parte. O que aconteceu é que estranharam o paizão comer carne, uma coisa que ele não fazia desde 1980. A verdade é que ele nunca foi vegetariano. Sempre continuou comendo peixe, ovos e, há cinco anos, voltou a comer frango. O peru no Natal ele nunca abandonou. E teve gente, ainda, que vinculou a polêmica à parte ecológica. Começaram a questionar: "como é que um cara que compôs músicas para as baleias agora está fazendo propaganda de carne?" Foi uma certa inocência das pessoas. São coisas diferentes, afinal: as baleias estão em extinção (risos). A carne animal faz parte da alimentação do ser humano. E outra coisa: ele pode até não comer carne, mas a família inteira dele come. Eu, pelo menos, nunca abandono uma picanha no prato, bicho (risos).

AG- Acha que toda a polêmica das biografias prejudicou a imagem do seu pai?
DB- ão acho, não. Existe a posição geral da imprensa, e claro que eu entendo, que é o medo da censura. Sei que 99% dos jornalistas são a favor das biografias não autorizadas. Sei que os jornalistas todos ficaram bravos com meu pai. Mas teve gente dizendo que a vida de criminosos, sejam eles políticos ou assassinos, e artistas sempre deve ser levada aos livros. Não acho justo comparar criminosos a artistas. Nesse sentido, o Nelson Motta falou "que ninguém conheceria a biografia de Hitler". É uma comparação exagerada. Meu pai só quer preservar a privacidade dele. Entendo que é uma questão sensível. As biografias costumam abordar questões muito pessoais, do tipo "olha, ele solta pum no sofá de casa": coisas que não vão mudar a história do Brasil.

AG- Dizem que seu pai tem problemas em falar sobre a perna mecânica. Ele realmente fica constrangido em tocar no assunto?
DB- É um assunto particular dele, e ele acha que faz parte da vida particular dele. No dia em que ele achar que deve falar, ele vai comentar. Entendo que as pessoas queiram saber disso, afinal, ele é uma pessoa pública. Mas a arte dele é o canto: ele responde sobre isso, e não sobre outras questões.

AG- Não é pela perna mecânica, então, que ele é contra a publicação da própria biografia?
DB- Não, não. Não é. A verdade é que ele tem uma posição sobre a história dele. E não é que ele seja contra as biografias. É que o mundo mudou. Não é só uma questão literária em relação às biografias. As biografias, hoje, são um grande negócio. São grandes best-sellers. Gaioto, é tudo um grande negócio. Há uma certa inocência das pessoas. Ninguém trabalha de graça, né?

AG- A música "O Careta" foi considerada plágio pela justiça. Essa e outras acusações de plágio aborrecem seu pai?
DB- Aborrecem. Sair do plágio é coisa mais fácil que existe. É só trocar uma nota, e pronto: você sai do plágio. Por isso, é claro que aborrece. E meu pai se aborrece porque, claro, ele não fez o plágio. Pelo menos, não que ele soubesse. O que há são coincidências. Hoje tem até programas de computadores que te livram disso. O plágio de verdade é inconsciente e normal. A música "Amigo", que é de 1936, e é uma música da Argentina, e a música "Caminhoneiro" tem coincidências. E vou te falar, hein, Gaioto: o que ouço de gente aí plagiando o paizão... (risos)

AG- "Em Ritmo de Aventura", para mim, é o melhor álbum do Roberto, com aquele rock sessentista. Algumas bandas de rock têm feito shows reproduzindo álbuns na íntegra. Acha que é possível, algum dia, ele fazer um show especial executando na íntegra esse álbum?
DB- Se depender de mim, sim. Eu gosto bastante de rock. E tenho até uma banda de rock que só toca os rocks dele. Tem projeto que era para ser lançado em comemoração aos 50 anos do paizão, mas que vai ficar para o próximo ano. Serão só bandas de rock tocando as músicas dele. Vai ter Titãs, Capital, Skank e Jota Quest, cada banda tocando uma música. O conceito de rock mudou com o tempo, há quem diga que Jota Quest seja mais pop do que rock. Mas, para mim, eles são todos roqueiros.

AG- Em fevereiro deste ano, deixei meu CD "Em Ritmo de Aventura" na portaria do edifício Golden Bay, onde seu pai mora, para ser autografado. No dia seguinte, passei pra pegar o CD autografado, mas, segundo o porteiro, o CD havia sido entregue no apartamento e ele não havia assinado. Será que o "paizão" pode devolver meu CD, se possível autografado?
DB- (risos) Você fez isso mesmo?

AG- É verdade. Eu só queria meu CD de volta.
DB- (risos) Claro, ele pode devolver, sim. Bom, eu tenho que ver, então, se esse CD ainda está lá. Mas você terá que esperar até o próximo dia 7, quando ele volta da turnê nos Estados Unidos. Assim que ele chegar, faço questão de ver a história do seu CD, com o maior prazer, com o maior carinho, bicho.


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