DUDU BRAGA
entrevista exclusiva concedida a Carlos Eduardo F.Bittencourt para o
Grupo Um Milhão de Amigos

15 de março de 2000




Dudu Braga não é dez... Dudu Braga é dez vezes dez.
É isso aí, bicho, Dudu Braga, Segundinho, Roberto Carlos Braga II é cem...
Nosso entrevistado especial, que com sua simpatia cativante conversou conosco por uma hora e trinta minutos,
é com certeza nosso melhor presente para você que acompanhou nossa luta e crescimento.
Essa entrevista tão linda é também nossa forma de reafirmar a Roberto Carlos
a dimensão do nosso carinho, da nossa compreensão, da nossa cumplicidade, do nosso imenso amor por ele.
Nesse mês de abril, nesse momento especial do seu aniversário,
Roberto Carlos sabe que o GRUPO UM MILHÃO DE AMIGOS
estará com ele no dia 19 para agradecer a Deus por ele existir
e ter sido sempre merecedor de tanto amor dos seus fãs e amigos.
Nas palavras emocionantes de Dudu a nossa homenagem a Roberto,
o nosso carinho pelo artista, pelo nosso amigo e pelo pai de Dudu.
Afinal, não é qualquer pai que tem a felicidade de ter presenteado o mundo
com um ser tão especial como é o filho de Roberto Carlos, Dudu Braga.
Suas palavras dizem o que sentimos:
"Eu vou falar o que ele fala para mim, todos os anos:
Pai, que Deus te proteja e te abençoe sempre. Parabéns.
É o que ele gosta de ouvir.”
...mas pedimos um pouco mais: Deus os abençoe, pai e filho. (Vera Marchisiello)



CE- Como surgiu a idéia de produzir a música “Nossa Senhora”, lançada em 1999?
DB- Essa idéia veio de uma rádio de São Paulo, a Nativa, que no Rio é a Tupi. Eles me mostraram a música e pediram a minha opinião, já que a idéia inicial era para que fosse apenas veiculada nas duas emissoras. Quando eu ouvi a gravação eu achei tão bonita que resolvi fazer uma produção melhor, para que fosse lançada no mercado com os direitos autorais revertidos para alguma instituição de caridade, pois poderíamos fazer uma coisa bonita com parte sendo beneficente. A música escolhida certamente ajudaria muito nesse tipo de ajuda. Como tenho um selo com o produtor Marcos Camargo, distribuído pela Universal, a direção da gravadora adorou a idéia e resolveu pegar mais dez fonogramas deles. Resolvemos lançar o disco todo de músicas religiosas.

CE- A música “Nossa Senhora” começou a ser divulgada no Rio, pela Tupi FM, e também na Rádio Nativa de São Paulo sem a participação de Roberto Carlos. Quando ele entrou no projeto?
DB- A música começou a ser executada pelas duas rádios, a Tupi e a Nativa, sem a presença do meu pai e só depois foi que ele ouviu. Quando levei a fita para ele escutar, ele adorou na hora e se propôs a participar do projeto.

CE- Como foi feita a distribuição dos artistas na música?
DB- Todos eles gravaram o refrão e alguns gravaram a primeira ou a segunda parte. Depois nós fizemos a montagem. Alguns cantores gravaram apenas pedacinhos da música. Lembro-me bem do Leonardo, que gravou várias frases soltas. O Zezé di Camargo gravou a partir da segunda parte da música. Nenhum deles gravou a canção inteira.

CE- A parte do Roberto foi retirada da gravação original, do disco de 93?
DB- Foi tirada do fonograma da Sony Music, da música que ele gravou em 1993.

CE- Dudu, como foi feito o clip?
DB- O clip tem algumas coisas que foram feitas quando os artistas gravaram a música mas alguns fizeram o clip depois da gravação da música, como por exemplo o Paulo Ricardo, a Hebe Camargo e o Salgadinho, do Katinguelê. As imagens do papai são do show, mesmo porque toda a produção da música e do clip foi feita numa época conturbada da sua vida. Por isso tivemos que trabalhar com coisas de arquivo.

CE- Como está a vendagem do disco?
DB- Está indo muito bem; já foram vendidas 360 mil cópias, o que é uma boa vendagem.

CE- Já se fala da possibilidade de você criar algum novo projeto?
DB- Já estamos pensando em alguma coisa, talvez para o Dia dos Namorados.

CE- Já dá para adiantar um pouquinho a respeito?
DB- Ainda é muito prematuro falar a esse respeito mas a idéia gira em torno de reunir novamente vários artistas, quem sabe pegarmos uma música do Roberto Carlos, talvez “Como é grande o meu amor por você”. Eu gostei de fazer parte desse projeto beneficente. Inclusive estive visitando as Obras Assistenciais da Irmã Dulce neste último domingo e é bom quando você vê que pode pegar um projeto artístico, comercial e bem feito para ajudar os outros.

CE- O fato de ser filho do Roberto Carlos a produzir o disco facilitou para que ele fosse liberado pela Sony Music para participar desse projeto?
DB- Eu não encontrei nenhuma dificuldade por parte da Sony Music. A única coisa que aconteceu foi que a Sony e as outras gravadoras quiseram informações sobre o projeto, para que ele se destinava. Realmente houve um trabalho burocrático bem grande junto às gravadoras, mas não encontrei problema quanto à liberação dos artistas. Todas as pessoas que viam o projeto, quando tomavam conhecimento de que os direitos artísticos seriam doados para instituições sérias, não colocavam nenhum obstáculo. Encontrei junto às gravadoras o trabalho burocrático normal.

CE- Como é ser filho de um mito como Roberto Carlos?
DB- É normal. Eu sou filho dele e não sei como é ser filho de outra pessoa. A única diferença é porque meu pai tem um estilo de vida relativamente diferente de outros pais por causa de shows e de gravações. Por exemplo, eu trabalho durante a semana e descanso nos finais de semana, já ele quando faz temporadas está fazendo shows nos finais de semana. Há épocas do ano em que o dia livre que ele tem para descansar é segunda-feira. Mas mesmo assim o meu pai descansa muito pouco, pois ele tira esses dias para resolver outros assuntos. Talvez essa falta de contato seja uma coisa diferente, mas fora isso ser filho do Roberto Carlos é uma coisa absolutamente normal pois temos uma relação de grande amizade e afeto, além de ele ser o meu ídolo.

CE- Mesmo tendo sempre tantos compromissos, ele sempre foi um pai participativo em sua vida?
DB- Sim, muito. Às vezes esteve ausente por problemas de agenda, mas sempre que tivemos algum problema ele largava tudo para estar com a gente. Em 1992, quando eu tive o problema da visão e tive que me internar em Houston, o meu pai pegava um avião e estava sempre por perto. E olha que são doze horas de viagem, é bem diferente de pegar uma ponte aérea São Paulo/Rio. E em todos os momentos em que precisei do meu pai ele sempre esteve por perto e me deu todo apoio. Familiarmente falando, o meu pai nunca faltou.

CE- Você ficava triste por não poder ir com seu pai a um cinema, a um parque, passear na rua quando era criança?
DB- Eu não me dava conta que esse tipo de coisa não era normal. Eu sempre fui muito caseiro, não gostava de sair muito, de ir a cinema. Quando eu era moleque gostava muito de ficar em casa me divertindo com meus brinquedos, então não percebia que meu pai não podia me acompanhar a determinados lugares por ser uma pessoa famosa. Eu fui me dar conta disso na adolescência, mas aí você já tem a sua vida estruturada. Hoje eu tenho consciência disso, mas naquela época não tinha. Com certeza isso não me causou nenhum tipo de problema.

CE- Você já chegou a ficar aborrecido por pessoas se aproximarem de você por ser filho de Roberto Carlos?
DB- Não, de forma alguma. Mesmo sabendo que às vezes as pessoas podem até se aproximar por eu ser filho dele, acho que isso é uma coisa normal com que eu tenho que saber conviver. Em relação aos fãs, a aproximação sempre foi muito carinhosa com a gente. A relação de proximidade que meu pai tem com os fãs é uma coisa muito legal e que eu curto muito. Até hoje sou agradecido pelo apoio que recebi dos fãs do meu pai quando eu tive o problema na visão em 1992.

CE- A partir de quando você começou a ter consciência de que seu pai era uma pessoa famosa?
DB- A partir dos seis ou sete anos de idade eu comecei a perceber o que ele representava para a música, que era um cantor bem famoso... A noção mesmo veio pelos meus dez anos.

CE- Ser chamado de “Segundinho” te aborrece? Por que o apelido Dudu?
DB- Isso é engraçado. Quando eu era adolescente, como sempre acontece, eu gostava de passar despercebido e quando alguém me chamava por Segundinho todo mundo já me identificava como filho de Roberto Carlos. Aí todos os olhares se voltavam para mim. Hoje não me incomoda ser conhecido assim. Segundinho foi um apelido usado pela imprensa, já Dudu foi um apelido que eu me dei quando tinha uns dois ou três anos de idade, mas nunca para fugir do “Segundinho”. Hoje, às vezes até me apresento como Segundinho para me identificar em determinadas ocasiões, pois quando falo que sou o Dudu vem sempre a pergunta: “Mas que Dudu?” Esse apelido de “Dudu” foi porque naquela época havia uma música, acho que do Eduardo Araújo, que falava do sorriso do Dudu, e a minha tia Vera, prima da minha mãe, a cantava para mim. Como eu gostava da música me auto-intitulei Dudu. Como era bastante mimado, todos passaram a me chamar assim lá em casa.

CE- Como foi a sua adolescência?
DB- Eu gostava muito de pegar onda e naquela época gostava de ouvir rock. Por isso o que mais gostava do repertório do meu pai eram os rocks. Os meus amigos não tinham o costume de ouvir músicas do Roberto Carlos, então às vezes pintava gozações. De vez em quando, em pleno mar, pegando onda, alguém começava a cantar “Emoções” ou outras músicas dele. Isso também fez com que tentasse me desvincular do apelido Segundinho.

CE- Uma vez seu pai falou em uma entrevista no México que no colégio, quando criança, você havia dito à professora que não faria o dever de casa porque você era filho do Roberto Carlos.Você se lembra dessa história?
DB- Sabe, eu já ouvi falar dessa história, só que não me lembro. Agora, se for verdade, eu tenho que me auto-repreender, porque eu tenho que ter sido muito bobo para falar isso. Com toda sinceridade, eu não me lembro disso, mas se fiz foi um erro.

CE- Quem foi mais liberal na educação de vocês, seu pai ou sua mãe?
DB- Minha mãe, ela era mais liberalzinha do que meu pai, mas nada muito diferente um do outro. Eles sempre foram muito democráticos e de muita conversa, mas a minha mãe era um pouco mais liberal que o papai.

CE- Qual a maior virtude que você recebeu do seu pai e pretende passar para a sua filha?
DB- A ética que ele tem e a verdade em relação a tudo que faz. Eu pretendo transmitir à Giovana todos os conselhos éticos e morais do meu pai. Para você ter uma idéia, o meu pai nunca faz nada em que não acredite, tudo que está em suas músicas são as suas verdades. Meu pai sempre teve muito cuidado para não transmitir nas letras das músicas coisas em que realmente não acredite, mesmo que tivesse sido melhor comercialmente.

CE- Você nunca pensou em ser cantor?
DB- Canto mal pra caramba, bicho! Aliás, canto mal pra caramba também é mentira, mas nunca me passou pela cabeça ser cantor. Eu toco um pouquinho de bateria, tenho até uma em casa, toco um violãozinho muito mal. É claro que toda pessoa pensa em um dia ter a mesma profissão do pai e com certeza um dia eu devo ter pensado em ser cantor, mas levar a sério e tentar a profissão isso nunca me passou pela cabeça.

CE- Como é a história de sua parceria na música “Cama e mesa”?
DB- Foi apenas um pedacinho da música que ele não conseguia completar, aquela parte que diz “todo homem que sabe o que quer...”. Então eu sugeri: “...sabe dar e querer da mulher...”

CE- Você ajudou em outras músicas?
DB- Às vezes, quando ele estava compondo com o Erasmo, eu ficava dando alguma idéia, mas nunca passou disso.

CE- Você já conversou algo de sua vida com seu pai que o tenha inspirado em alguma canção?
DB- Pode ser que alguma coisa da minha vida já tenha servido para alguma música dele. “Nossa Senhora” foi feita num momento difícil da minha vida e com certeza para ele, como pai, mas não digo que tenha sido feita diretamente para mim. Também em 94, eu havia terminado um namoro e conversávamos sobre isso quando ele me disse que quando a pessoa está apaixonada tudo fica lindo e maravilhoso e aí eu disse: É, pai, os defeitos viram virtudes. Essa idéia entrou na música “Quando a gente ama”. Meu pai sempre diz que “As flores do jardim de nossa casa” foi feita quando eu tive o meu primeiro problema de visão. Até hoje é para mim uma música muito difícil de ouvir, me emociona muito, procuro sempre não estar muito concentrado nela, a não ser quando não tem jeito.

CE- Qual a sua música preferida do Roberto Carlos? E o disco?
DB- É “Todos estão surdos”, que eu adoro. A música romântica que eu mais gosto é “Olha”. Também gosto muito da gravação da música do Tim Maia “Não vou ficar”. Quando eu era moleque, a música que mais gostava dele era “A montanha”. Dos discos, gosto muito do que tem “Detalhes” e “Todos estão surdos”. Mais recente, o de 94, que tem “Alô”.

CE- Em casa você ouve os discos do seu pai?
DB- Ouço sim, e com a coletânea que saiu no final do ano ficou mais fácil ouvir os sucessos.Também tenho os discos no meu carro mas não vou dizer que coloco sempre, a toda hora. Como trabalho com música, escuto muito rádio, até mesmo para ficar por dentro de tudo. Mas sempre que posso coloco um disco dele para saber o que ele fazia e o que ele faz agora.

CE- Você tem os discos em outros idiomas?
DB- Não tenho. Estou sempre para pegar no escritório o disco em inglês, de que gosto demais.

CE- Ser filho do Roberto Carlos ajudou em alguma coisa? Prejudicou em algo?
DB- É claro que ajuda, mas não tem como não ajudar. Como trabalho com música não posso negar que isso me abre portas. Tenho que ser honesto como ele, não posso negar isso. Nunca prejudicou em nada. Talvez possa ter me aborrecido algum dia com alguma coisa. Lembro que a única vez que briguei na minha vida, briga de mão mesmo, foi por causa do meu pai. Foi numa academia de ginástica, onde um conhecido meu começou a falar mal do meu pai. Sabe como é adolescente, começa na brincadeira, meio na gozação, depois a coisa vai ficando séria. Começou a me aborrecer e acertei um soco nele, a gente acabou rolando no chão. Depois ele até se assustou com a minha atitude já que não sou de briga. Às vezes surgem alguns comentários maldosos, mas isso é normal porque ele é uma pessoa pública e há quem não goste do seu trabalho. Temos que saber aceitar esse tipo de coisa. Aliás, na vez que briguei foi por causa de ofensas pessoais e não pelo lado profissional. Sei aceitar críticas ao trabalho dele. Sei que não se pode agradar a todos, que cada um curte um tipo de música.

CE- Dudu, como foi sua viagem com seu pai para a Disneylândia?
DB- Foi nas férias de julho de 1977. Ele estava gravando em Los Angeles e aproveitamos para passar as férias lá. Passeamos e brincamos muito. Só que na hora de andar de montanha russa eu e ele preferimos brincar nos carrinhos. A gente saiu de fininho, deixando a minha mãe e minhas irmãs na montanha russa.

CE- Que outras férias você passou com seu pai viajando? Já o acompanhou ao exterior durante shows e gravações?
DB- Várias férias me lembro de ter passado com ele em Angra dos Reis, no barco. Nos feriados estamos sempre juntos. Agora mesmo passei com ele no Rio parte do carnaval. Quanto ao Exterior, me lembro de uma tournée no México em 1980, durante 45 dias, fazendo shows em várias cidades. Em 89 eu estava passando uma temporada em Los Angeles, fazendo um curso de inglês, e fiquei com ele durante toda a gravação do disco. Foi bem legal tê-lo visto fazendo aquele trabalho. Depois eu e minhas irmãs viajamos com ele em maio de 1990 para Miami, quando ele estava gravando no Criteria. Nós o acompanhamos por Portugal, França e Espanha nessa mesma época. Sempre que pode ele me convida, eu é que nem sempre posso ir.

CE- Como você vê o sucesso de Roberto no exterior?
DB- É muito legal, dá um orgulho muito grande. Fico pensando como a carreira dele foi longe. É uma emoção igual à que tenho quando ouço “As flores do jardim de nossa casa”, só que é uma emoção boa. É legal saber que o sucesso dele ultrapassou fronteiras.

CE- Como você observa o carinho dos fãs por Roberto Carlos?
DB- O legal dessa relação é o carinho que existe. O bonito é que às vezes parece uma relação até íntima, como eu falei das várias cartas e mensagens carinhosas que recebi quando tive o problema de visão em 1992/93 e também agora com o problema da Maria Rita. Foram tantas manifestações bonitas que recebemos! Se fosse pelo lado da idolatria seria um carinho só com ele, mas a gente também recebe todas essas coisas boas. Orgulho não seria a palavra, porque orgulho é algo muito pessoal, mas eu considero essa troca de amor e de carinho como uma coisa realmente muito bonita.Não há como negar que é uma relação emocional e até mesmo afetiva. Sei da importância que ele tem para vocês, fãs. Até mesmo no final dos shows, quando ele distribui as flores, aquilo é uma loucura!

CE- Como você vê a fé do seu pai? Acha que se intensificou no final dos anos 80?
DB- Ele é um cara de muita fé, não posso negar que é muito mais religioso que eu e que toda a família. Ele acabou se tornando como que um patrono religioso na família, mas não é um cara que prega dentro e casa, mesmo porque ele não é padre e nunca vai ser, como chegou a ser publicado por aí. O negócio dele é música, cantar e compor, mas todas as suas atitudes de honestidade são baseadas na palavra de Jesus. É dessa forma que ele passa a sua religiosidade, de uma maneira muito natural, nada de imposição. Ele vai falando e vai agindo dessa forma, com honestidade, com carinho, com amor, cantando as verdades em que acredita. É dessa forma que ele nos passa a sua fé. Ele sempre cantou músicas de caráter religioso, desde “Jesus Cristo”, em 1970, mas, o que é natural, com o tempo você passa a encarar a vida de uma outra forma. Eu acredito que essa forma de expressar, hoje, a sua religiosidade, veio com o passar do tempo.

CE- Como é o vovô Roberto Carlos?
DB- Eu posso até dizer que me surpreende. Eu e meu pai somos super-amigos, mas é claro que há uma relação de respeito mútuo. Mas a Giovana dá umas duras nele, tipo “vem aqui vovô, vem”, que eu fico espantado. E o pior é que ele obedece. Outro dia estava na casa dele e ela colocou os pés com sapatos em cima do sofá. Como os estofados são claros eu a adverti para que tirasse os pés de cima do sofá. Mas ele disse: “Não, deixe”. Ela faz um charme para ele e ele curte muito, adora. Dá até para dizer que ele é um avô babão. Ele curte bastante a Giovana.

CE- Você é supersticioso? Usa marrom e roxo perto do seu pai?
DB- Tenho algumas superstições, mas não tantas. Quando apareço com uma calça marrom que eu tenho ele logo fala: “Puxa, bicho, que calça veio que você está!” Mas eu não me visto de acordo com o gosto dele. Às vezes coincide. Outro dia em estava com uma calça jeans, camisa azul e tênis branco, bem Roberto Carlos. Aí fiz questão de desfilar na frente dele, mostrando a roupa, mas ele não esquenta com as nossas roupas, mesmo porque ele nos dá total liberdade. Mas às vezes brincamos dizendo: “Olha, me vesti pra você”.

CE- Você se lembra da gravação do Especial Roberto Carlos de 1974, em que você contracenou com o Gugu e o Garibaldo, personagens da Vila Sésamo?
DB- Muito, lembro direitinho, apesar de ter só cinco anos na época. Foi um momento inesquecível porque eu era fã incondicional desses personagens da Vila Sésamo. Eu estava solto, curtindo tudo. Sempre que revejo o Especial volto há 25 anos atrás. Não houve direção naquela cena, mas eu tinha a noção de que estavam gravando. Acho que o Vannucci deve ter orientado os personagens sobre certas perguntas. Uma que me lembro e acho que nem foi ao ar foi quando o Gugu perguntou se eu tinha namorada. Eu sei que quando estava vendo o programa na televisão fiquei bastante envergonhado, me escondi do lado do sofá, com medo que fosse ao ar. Ficava pensando no que meus amigos da escola iriam pensar. Eu queria conseguir essa gravação na Globo; acho que eles devem ter no arquivo.

CE- Duas músicas do Roberto falam da infância de vocês, “Quando as crianças saírem de férias” e “Fim de semana”. Elas te fazem retornar ao passado quando as ouve?
DB- “Quando as crianças saírem de férias” me dá uma noção do presente pois adoro minha filha mas o refrão “...quando as crianças saírem de férias talvez a gente possa então se amar um pouco mais...” é uma tremenda verdade, nua e crua. Essa música é como se fosse um recado nos lembrando de que seremos iguais aos nossos pais, que de certa forma as coisas se repetem. Já “Fim de semana” me faz recordar a gravação do Especial do meu pai. Eu, ele e minhas irmãs andando num calhambeque, num determinado momento dei um tapa na cabeça da Ana Paula... Acho que essa cena foi ao ar.

CE- A discrição da família Braga sempre me impressiona. Existe a consciência de que isso seja importante para o sucesso da carreira do seu pai?
DB- Com certeza, tenho sempre cuidado com declarações, até mesmo em questões pessoais. Exemplo disso é que não afirmo que a música “Nossa Senhora” tenha nascido devido à minha doença, porque meu pai nunca me disse isso. Tenho muito cuidado com o que falo, e o maior exemplo que tenho é mesmo do meu pai, que gosta de levar uma vida bastante discreta.

CE- A crítica sistemática aos discos de Roberto Carlos te aborrece?
DB- Já me aborreceu. Agora a gente já se acostumou. Crítica não vende discos, não faz sucesso nem tem fã. A crítica até é importante, mas não está diretamente ligada ao sucesso de um artista. Meu pai é um cantor romântico há quarenta anos, com cerca e quinhentas músicas, tem que continuar nesse caminho, e é o que ele vai continuar fazendo sempre. Não sei o que os críticos querem. Ele canta o amor e acredita no que canta. Talvez o máximo que ele faça será cantar músicas sertanejas, como esse disco que está gravando. O repertório sertanejo é bem romântico, mesmo que às vezes tenha umas músicas mais picantes. E ele vai incluir algumas regravações do seu próprio repertório. Não estou menosprezando a crítica, mas o Roberto Carlos grava o que ele é e não vai mudar nunca para agradar os críticos.

CE- Dudu, fale um pouco do seu trabalho no Grupo RC.
DB- Trabalho na administração geral dos negócios do meu pai, a nível administrativo e financeiro. Cuido do selo Amigo Records, da empresa que cuida dos shows, a Natureza, e dos negócios não ligados à sua carreira artística. No artístico só dou alguns palpites, como quando ele estava escolhendo repertório para esse disco sertanejo que está gravando. Ele tem uma equipe que cuida dessa parte profissional.

CE- Qual a maior alegria que o cantor Roberto Carlos já lhe deu?
DB- Bicho, que pergunta difícil... Artisticamente uma coisa que me marcou muito foi quando ele ganhou o Grammy, em 89. Participei da divulgação do disco e para mim foi muito emocionante. Outra grande alegria foi ele ter ido à minha formatura do curso de publicidade e propaganda, em 1990. A festa foi no Anhembi e eu estava lá em cima no palco em que várias vezes o vi cantando. Eu até procurei não olhar muito para ele para não me emocionar. Naquele dia eu tive mais uma vez a certeza de que meu pai está sempre comigo. Foi uma choradeira geral. Mas ele me dá alegrias sempre. Ali foi só mais uma confirmação.

CE- Como está o projeto com o meninos de rua de São Paulo?
DB- Graças a Deus são cerca de 450 crianças que estão muito bem. Parte da renda do disco “Nossa Senhora” vai para eles. Nós conseguimos um convênio com a prefeitura e o patrocínio do grupo Pão de Açúcar. Aquela matéria da “Caras” como meu pai com eles ajudou muito. Já temos várias atividades esportivas e musicais, computação e muito mais.

CE- Você conhece bem o trabalho do Grupo Um Milhão de Amigos?
DB- A gente está sempre em contato com vocês. O escritório, eu e meu pai somos muito ligados a vocês, um vive em função do outro. Eu só tenho que agradecer todo esse carinho, todo esse amor que vocês têm pelo meu pai. Isso é a razão de ele cantar, subir ao palco de novo e tocar para frente. Graças a Deus isso vai acontecer em breve com muita força. Eu só posso agradecer por tudo que vocês fazem por ele.

CE- Como você define Roberto Carlos?
DB- Prefiro definir o artista Roberto Carlos. Ele é exatamente o que sua música fala. Ele é tudo aquilo que canta. Essa é a verdade dele, uma coisa absolutamente verdadeira.


PÁGINA INICIAL ENTREVISTAS COMO É BOM SABER