EDUARDO LAGES
entrevista exclusiva concedida a Carlos Eduardo F.Bittencourt para o
Grupo Um Milhão de Amigos

março 1992




Como diria Roberto Carlos, nosso entrevistado é o “meu irmão, meu compadre, meu maestro, Eduardo Lages”.
Eduardo começou a estudar piano aos quatro anos, influenciado pela mãe.
Antes de dirigir os shows de Roberto Carlos, gravou jingles, participou de gravações do “Globo de Ouro”,
onde conheceu Roberto, e foi regente da banda de Benito di Paula.
O maestro dirige os shows de Roberto Carlos desde 1978, tem nove músicas em parceria com Paulo Sérgio Valle gravadas por RC,
e fez mais de vinte arranjos para os discos do cantor.
Apesar de também fazer músicas e arranjos para outros artistas,
Eduardo Lages afirma que Roberto Carlos tem sempre prioridade.


CE- Como você começou a dirigir os shows de Roberto Carlos?
EL- Foi uma entrada confusa, já que Chiquinho de Moraes saiu repentinamente. No começo, eu entrei como substituto, interino, sem saber se ia ficar. Mas com o passar do tempo fui ficando e acabou dando certo.

CE- Qual a importância de Roberto Carlos em sua carreira?
EL- A partir do momento em que passei a trabalhar com ele, o meu conceito de música popular brasileira mudou completamente, já que eu era um pouco mais elitizado. Em contato com o público do Roberto, eu passei a entender o que o povo gosta. O trabalho com Roberto marcou e ainda marca muito minha vida.

CE- Você participa da escolha do repertório dos shows?
EL- Dou muitas sugestões, principalmente nos poutpourris e na ligação das músicas. O Roberto dá bastante abertura nos shows. Isso já não acontece nos discos. Eu fico mais solto nos arranjos, que não são tão rígidos como nos discos, e ele gosta do resultado.

CE- Fale um pouco sobre o show “Coração”.
EL- É o show mais popular do Roberto Carlos. Nós procuramos escolher os melhores momentos da sua carreira. É lógico que é difícil escolher cerca de vinte sucessos para quem tem mais de duzentos, mas procuramos fazer uma seleção de suas músicas desde a Jovem Guarda. Se você notar, é o show que conta com a maior participação do público desde 78, quando eu comecei a dirigir sua banda. As pessoas cantam muito com o Roberto.

CE- A saída das cordas da banda foi por problemas econômicos ou para mexer um pouco nos arranjos?
EL- Foram os dois motivos. Um, até, por atualização, com o uso de instrumentos eletrônicos. Se bem que eles não substituem cem por cento os músicos. Há um pouco de economia também, mas não só no palco. Fica difícil conseguir passagens para trinta ou quarenta músicos, quarto de hotel, e outras coisas mais. Essa foi uma experiência que funcionou, mas não significa que a gente não volte a utilizar as cordas.

CE- Por que a música “Coração”, feita em 1984, não está no repertório do show, quando muitos esperavam, até,
que ela fosse a música de abertura?
EL- Eu sou até um pouco suspeito para falar sobre isso, já que a música de abertura é “Cenário”, que fiz com Paulo Sérgio Valle. Assim como “Coração” também serviria para abrir o show... Mas “Cenário” é uma musica atual e é uma forma de trabalhar o último disco, já que o show foi lançado no começo de 1990.

CE- Como você fez “Cenário”?
EL- Eu considero a música mais bonita que já fiz em toda a minha vida. Foi um momento de inspiração e são coisas que não se pode explicar. O importante também é que Roberto gostou muito e espero conseguir fazer outras músicas tão bonitas como esta.

CE- Quando você compõe o Roberto dá alguma dica do que quer gravar?
EL- Não. Pode acontecer um caso, como num determinado ano eu perguntei que tipo de música ele estava precisando no disco. Mas nem sempre eu acertava. A composição é livre e ele não dirige. Mas só grava se quiser.

CE- Como são feitos os arranjos de músicas para o show, para que fiquem diferente dos discos?
EL- Há músicas, como “Outra vez” e “Detalhes”, que eu considero como arranjos definitivos. E são músicas em que as letras são mais valorizadas. Quanto menos confusão no arranjo, mais valorização da música. Já “Emoções” é uma música em que pouco se pode mexer no arranjo. Eu já tentei e não deu certo. Além de ser uma grande música, ela é muito valorizada pelo arranjo. “Detalhes” o Roberto cantou, no show passado, só com o violão, e ficou lindíssima.

CE- A entrada do Roberto no palco, como acontece com todo artista, é sempre tensa
e já reparei que ele só domina o palco depois de cumprimentar você.
EL- Eu também posso dizer que me acalmo com o nosso aperto e mão, e se algum dia o Roberto não me cumprimentar vou achar estranho. Aquele aperto de mão já é tão natural que parece uma força que me leva para perto dele. Virou costume, mas não é mecânico.

CE- O que você e Roberto conversam tanto durante o show?
EL- Olha, a gente procura descontrair o espetáculo. É claro que, às vezes, o Roberto reclama do som ou do andamento das músicas, mas normalmente é apenas descontração. Ele sempre teve essa mania. Muito antes de trabalhar com ele, eu via que, ao se abaixar para agradecer, Roberto Carlos sempre falava alguma coisa. Hoje procuro imitá-lo e acho que o resultado é bom. Mas, quase sempre, ele fala de um lado e eu do outro e no fundo nós não falamos nada.

CE- O fato de você tocar piano em “Luz divina” significa que o RC-9 pode ter mais um pianista?
EL- Eu gosto muito de tocar piano. Por isso pedi ao Wanderlei para tocar em “Luz divina”, que foi a única música da qual participei nas gravações do seu mais recente disco. Não é a primeira vez que toco piano nos shows do Roberto Carlos.

CE- A imprensa critica muito os discos do Roberto Carlos, mas o elogia como cantor. Você concorda?
EL- Sob alguns aspectos, Roberto está cantando cada vez melhor. Eu acho que é o amadurecimento por que passa todo artista e o faz parecer vinho: Quanto mais velho melhor. Com relação aos discos, eu também tenho críticas e ele as aceita por educação. Mas sempre fica valendo a sua opinião.

CE- Você nunca pensou em gravar as aberturas dos shows do Roberto Carlos em disco?
EL- Já pensei em pegar todos os arranjos dos nossos shows e gravar um disco, só que sem a voz do Roberto. O problema é a crise do mercado fonográfico. Mas isso é um projeto para médio prazo, tipo até o fim do ano.

CE- Qual o momento mais bonito que você já viveu com Roberto Carlos no palco? EL- Foi o primeiro show que dirigi dele, no Canecão. Como foi uma substituição de última hora, havia uma insegurança total, tanto de minha parte quanto da parte dele. Eu sabia que ele se sairia bem, mas o problema era que ele não sabia como eu me sairia. E acho que me saí bem. Ele me abraçou, no palco, e falou: “Muito obrigado, maestro, você me deu uma tranqüilidade muito grande”. Este foi o momento, realmente, que mais me marcou. Agora nós temos vividos momentos muito bonitos, como no Madison Square Garden, em Nova Iorque, com uma platéia cheia de celebridades. O final do show foi apoteótico, com o público vibrando, uma alegria muito grande. Eu pensei: Puxa vida, eu, um garotão da zona norte de Niterói, estou aqui, sendo aplaudido de pé, ao lado do Roberto. Um outro show que me marcou foi há uns dez anos atrás em Niterói, no Caio Martins. Foi alucinante. Eu me senti muito bem, porque tinha voltado à minha terra como maestro do Roberto Carlos. Isto era muito importante para mim. Coincidiu de ser um show muito vibrante, com o ginásio superlotado, e Roberto super inspirado. Foi um show maravilhoso.

CE- Defina o cantor e o ser humano Roberto Carlos.
EL- Ele não é a maior voz do Brasil, não é o mais afinado e nem o cantor mais técnico do Brasil, mas é o maior cantor do Brasil. Sua capacidade de passar a música, de valorizar a letra, é muito importante. Como pessoa, gosto muito do Roberto, tanto que até o convidei para ser o padrinho da minha filha. E ele prestigia muito isso. Eu gosto muito dele e sinto saudades quando a gente fica algum tempo sem se ver. É nessa parada que eu vejo a importância da nossa amizade.


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