ERASMO CARLOS
entrevista exclusiva concedida a Carlos Eduardo F.Bittencourt para o
Grupo Um Milhão de Amigos

abril 1994




No mês de aniversário de Roberto Carlos quem ganhou um grande presente foi nosso Grupo Um Milhão de Amigos.
Depois de muitas tentativas, conseguimos uma entrevista com Erasmo Carlos.
Pensamos muito no que falar para você, Roberto, neste seu aniversário.
“Te quero bem, felicidades, paz, saúde e parabéns”, o Altay Velloso já disse na música que você gravou.
Então recorremos às palavras daquele que um dia você disse ser seu “amigo de fé, irmão camarada”.
Erasmo Carlos resumiu o que um milhão de amigos querem lhe dizer:


CE – Como a música surgiu em sua vida?
EC – Eu acho que foi quando minha mãe começou a me embalar com cantigas de ninar. Aí eu fui crescendo ouvindo música, do que gosto muito. Depois comecei a me interessar pelos musicais americanos e brasileiros, pelos artistas que ouvia na Rádio Nacional, no Rio, tipo: Emilinha Borba, Marlene, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e outros.

CE – Quando você descobriu que queria ser cantor profissional?
EC – Não houve um dia específico. Fui descobrindo porque, quando ouvi pela primeira vez “Rock-and-Roll” com Bill Halley e seus Cometas tocando numa festa, achei aquele som maravilhoso. Era diferente de tudo que eu tinha ouvido até então. Comecei a me interessar por aquele gênero novo de música que estava surgindo, o rock, e fui conhecendo pessoas que também gostaram daquele som, daquele ritmo. De conhecimento em conhecimento, acabei conhecendo o Roberto Carlos, que foi uma pessoa definitiva em minha vida.

CE – E como foi esse encontro?
EC – Eu já conhecia o Roberto da televisão. Ele participava do programa Clube do Rock, na antiga TV Tupi, às terças-feiras, de 12:45 às 13:00 horas. Era um programa comandado por Carlos Imperial. Então, como me interessava por tudo que tinha relação com o rock, acompanhava o programa e já tinha visto o Roberto cantar. Um dia dois amigos nossos, o Arlênio Lívio e o Édson Trindade, que já morreu, me apresentaram ao Roberto Carlos. Eles o levaram lá em casa porque ele estava precisando da letra de uma música do Elvis Presley, para cantar antes do show do Bill Halley e seus Cometas, no Maracanãzinho. Os dois então me apresentaram a ele, falando que eu sabia tudo quanto era rock, que tinha letras de todo mundo. Aí surgiu a nossa amizade. Depois dessa apresentação, começamos a nos encontrar, e o Roberto mandou eu aparecer na televisão. Tive a minha primeira chance na TV, conheci outras pessoas como o Wilson Simonal, e reencontrei o Tim Maia, que já conhecia da Rua do Matoso.

CE – Quem fazia parte da Turma do Matoso, tão famosa na Tijuca nos anos 60?
EC –Eu trouxe o Roberto para a nossa turma, quando estudávamos o Colégio Ultra, na Praça da Bandeira. Nem me lembro o curso que fazíamos; acho que era datilografia. Daí foi surgindo uma amizade forte, e fui conhecendo outras pessoas e entrando cada vez mais no meio artístico. Fui secretário do Carlos Imperial, durante um ano e meio, depois entrei para o Renato e Seus Blue Caps e formei um grupo vocal, os Snakes, que se apresentava com o Roberto. Ele era o Elvis Presley brasileiro, e o Tim Maia o Little Richards brasileiro. Eu fazia o back-ground para os dois. O conjunto se apresentava, depois era a vez do Tim e, por último, se apresentava o Roberto. Nós fazíamos o vocal para os dois. Aí terminava o show numa maior festa, com todo mundo dançando e cantando.

CE – Os Snakes gravaram algum disco com a participação do Roberto Carlos?
EC - Gravamos vários discos, na Mocambo e depois na CBS. Aí o conjunto acabou. Mas o Roberto não participava do grupo. Os Snakes eram o Édson Trindade, o Arlênio Lívio, o Zé Roberto, o China e eu.

CE – E os Sputnicks? Você também fez parte dele?
EC – Na época eu nem conhecia o Roberto Carlos. O conjunto faz parte da vida do Roberto e do Tim Maia. Quem deve saber sobre a história do grupo é o Tim Maia.

CE – Qual a importância do Carlos Imperial em suas carreiras?
EC - Ele teve muita importância na carreira de todo mundo, mas foi muito mais importante na vida profissional do Roberto, pois foi o cara que conseguiu a primeira gravação dele, apresentando-o ao Chacrinha e fez várias composições para o primeiro disco do Roberto Carlos, o “Louco por você”. Mas também representou muito para mim. Fui secretário dele, aprendi muito com ele, e todos os artistas devem alguma coisinha a ele. Mas acredito que o Roberto é que mais ficou agradecido, pois o Imperial fez mais para ele do que para os outros.

CE – Você fez várias versões para o Roberto Carlos quando ele começou a carreira. Fale de duas especiais: “Splish, splash” e “O calhambeque”.
EC – Eu dificilmente faço versão; eu faço mais uma adaptação. Além dessas, há várias outras, como “Nasci para chorar”, que o Fagner também gravou, e inúmeras que nem me lembro mais. Como eu disse no início, eu era um cara interessado em tudo que se referia ao rock-and-roll, então ouvia todos os programas e sabia das músicas. Essas músicas podiam nem ser conhecidas aqui, mas eram famosas nos Estados Unidos. No Brasil, só tinha conhecimento aqueles que eram verdadeiros fanáticos pelo rock, como eu. Aí descobria essas músicas, fazia as adaptações, mostrava ao Roberto, e ele gravava.

CE – Você imaginou que “O calhambeque” fosse fazer tanto sucesso?
EC – Quando a gente faz uma música, nunca imagina o que pode render. Nós fazemos, e as coisas vão acontecendo. Às vezes cai no gosto popular e às vezes não. Mesmo assim, se o sucesso não acontece, não nos lamentamos porque não deixou de ser uma tentativa. Muitas músicas fizemos crentes que seriam um sucesso maravilhoso, e não foi. Outras, não acreditávamos, e acabaram se imortalizando. Um exemplo é “Não quero ver você triste”, que é a penúltima faixa do lado-B de um disco em que a gente acreditava em muitas outras músicas, e ela acabou sendo o carro-chefe do disco.

CE – E a primeira parceria de vocês, “Parei na contra-mão”?
EC – Nós começamos a fazer essa música dentro de um lotação, um pequeno veículo antigo do Rio, onde só viajavam cerca de 20 passageiros sentados, parava em qualquer ponto onde o passageiro quisesse e corria muito. Ele era menor que um ônibus. É, foi ali que nasceu nossa primeira composição. Depois desenvolvemos a música.

CE – Antes de iniciar sua carreira de cantor você já arriscava fazer músicas?
EC – Quando eu surgi como cantor, já tinha cerca de 40 a 50 músicas inéditas, entre elas “Splish, splash” e “O calhambeque”, que já estavam prontas. Depois, foi só mostrá-las aos outros cantores. A Cleide Alves, uma cantora da época, a Selmita, o Sérgio Murilo, Trio Esperança, a própria Wanderléa, foram alguns artistas que já tinham gravado minhas músicas antes que eu seguisse a carreira de cantor. Houve uma ocasião em que eu tinha seis músicas entre as dez primeiras das paradas. Isso chamou a atenção dos empresários das gravadoras e aí eu fiz uma peregrinação pelas gravadoras. A CBS, por exemplo, disse que não queria um cantor do mesmo estilo do Roberto Carlos, que era seu contratado. A outra afirmava que já estava com o quadro completo. Cada uma tinha uma desculpa. Até que me aceitaram na RGE, onde gravei o meu primeiro disco, devido ao meu sucesso como compositor.

CE – A música “Os sete cabeludos” conta a história de muitas brigas e confusões daquela época. Vocês se metiam em muitas brigas por causa de garotas?
EC – Essa música é engraçada porque foi uma das músicas que a gente acreditava que seria um tremendo sucesso, já que além de mostrar o nosso lado de brigão, a gravação foi inesquecível. O Jorge Ben, o Luiz Carlos Ismail e um monte de pessoas participaram da gravação, fazendo a sonoplastia da briga. Levamos latas, garrafas e tudo mais para o estúdio. Na hora de quebrar as garrafas, todo mundo jogava garrafas no chão, nas paredes; imitávamos o barulho dos tapas batendo com as mãos. Você pode ouvir tudo isso antes do solo de entrada. Mas as músicas nem sempre obedecem a uma realidade completa. Essa pode ter alguma coisa de real, de brigas, essas coisas todas, isso é verdade, mas não a história retratada na composição. Aí nós criamos.

CE – Como surgiu a idéia do programa “Jovem guarda”?
EC – Quando a TV Record foi proibida pela Federação Paulista de Futebol de transmitir ao vivo partidas do Campeonato Paulista, a emissora ficou sem saber o que colocar no ar para preencher o horário. Eles ficaram procurando algum programa jovem. Na época a Record tinha o programa “Dois na Bossa”, com o Jair Rodrigues e a Elis Regina, e alguém deu a idéia de fazer algo parecido com os cabeludos do rock que estavam surgindo. Naquela época, os programas da Record eram idênticos aos de rádio, apenas com câmeras de televisão. Eles eram feitos ao vivo. Como nós já estávamos dominando as paradas de sucesso, fomos convidados pela direção da emissora. Primeiro foram chamados o Roberto e eu, e ficou uma vaga aberta para mulher. Eles tinham dúvidas entre a Wanderléa e a Rosemary. A Wanderléa foi escalada porque cantava músicas mais animadas; já a Rosemary tinha um repertório mais de baladas, músicas lentas. Com o trio, o programa foi ao ar.

CE – Vocês já conheciam a Wanderléa antes do programa?
EC – Já, havia muito tempo. Inclusive, ela já tinha gravado músicas minhas. E também nos encontrávamos pelos corredores das estações de rádio e TV.

CE – E o nome do programa? De quem foi a idéia?
EC – Inicialmente ele iria se chamar “Festa de arromba”, mas como era o nome de uma música minha e do Roberto, eles escolheram outro nome. A direção temia que depois da música fazer sucesso e cair no esquecimento, o nome “Festa de arromba” não fosse tão forte para o programa. Já “Jovem guarda” foi escolhido porque o Ricardo Amaral, na época, tinha uma coluna com esse nome em um jornal paulista. Ele falava da juventude nas colunas sociais e aí foi escolhido este nome para o programa.

CE – A vida de vocês mudou depois do “Jovem guarda”?
EC – Completamente, da água para o vinho. Nós, meninos do proletariado urbano, que não tínhamos nada na vida além de amor e saúde, de repente começamos a ter outros prazeres, como: sucesso, dinheiro, mulheres, automóveis. A gente tinha como primeiro pensamento comprar uma casa para mãe e também um carro. Hoje em dia, graças a Deus, nos proporcionamos isso às nossas famílias.

CE – Até que ponto esse sucesso tirou a privacidade de vocês?
EC – Não, isso nunca chegou a nos incomodar. Veja bem: era um barato não poder mais andar de lotação e ter que andar de carro. Eu nunca me preocupei com isso. Me lembro do tempo em que comecei a aparecer na televisão e passei a morar em São Paulo. Ia para a Rua Direita, tipo Rua do Ouvidor aqui no Rio, só de pedestre, e ficava parado, esperando alguém me reconhecer.Quando eu via uma menina me apontando, ficava super-orgulhoso por estar sendo reconhecido. Então, aos poucos, com o sucesso do “Jovem guarda”, as coisas foram ficando difíceis, e nós não podíamos mais freqüentar alguns lugares, devido ao assédio dos fãs.

CE – Por quanto tempo você morou em São Paulo?
EC – Foram sete ano, de 1963 a 1970.

CE – A Jovem Guarda surgiu na época em que aparecia, na Inglaterra, o conjunto The Beatles. Quando aos costumes e à própria música, vocês se basearam neles?
EC – Muito. Somos contemporâneos, e os ídolos deles eram os nossos: Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richards. Enfim, os mesmo que nós admirávamos. A juventude do mundo inteiro precisava de uma nova linguagem, e ela surgiu na Inglaterra com os Beatles, no Brasil com a gente, na Argentina com um movimento chamado Nueva Ola (que quer dizer Nova Onda), e surgiu em outros países também. Nossa geração foi importante porque conseguiu ser o retrato de todos os jovens. Nós éramos o que eles gostariam de ser, tanto no modo de vestir como na rebeldia, nas letras das músicas; enfim, éramos o retrato de uma geração que estava surgindo.

CE – O que acontecia nos bastidores do programa? Você tem alguma história curiosa para contar?
EC – Havia uma grande confraternização entre a gente. Muitas pessoas perguntam se nós tínhamos relações sexuais com as cantoras. Isso nunca aconteceu porque elas estavam sempre acompanhadas de suas mães. Há histórias engraçadas, como a dos bombons: durante as apresentações, os fãs jogavam muitos bombons nos palcos, e a gente ficava doido para comê-los. Quando fechava a cortina, era uma farra entre os técnicos dos bastidores, cantores e cantoras, músicos... Enfim, era uma verdadeira guerra para pegar os chocolates. Outra história engraçada é que fizemos um buraco na parede de compensado que dividia o camarim dos cantores do das cantoras. Assim, podíamos ver quando elas trocavam de roupas. Aquele buraco era disputado à tapa, e posso afirmar que nós vimos as maiores e melhores cantoras do Brasil nuas.

CE – Naquela época havia rivalidade entre vocês?
EC – Era bem diferente de hoje em dia.Todo mundo torcia pelos companheiros, dávamos força aos outros. Pelo menos aparentemente não existia rivalidade. Inveja também não existia. Não sei se no íntimo de cada um isso existia. Era uma rivalidade muito bonita, dentro e fora do Teatro Record. Mesmo contra a MPB, que olhava a gente com desconfiança, não existia nada. O “Jovem guarda” foi um programa aberto e lá se apresentaram Cyro Monteiro, Caetano Veloso, Gal Costa, Elis Regina, Chico Buarque, Elizeth Cardoso, Cauby Peixoto, Geraldo Vandré. Enfim, não havia preconceito musical algum no programa.

CE – Como aconteceu o final do programa?
EC – Quando o “Jovem guarda” saiu do ar já não era mais o Roberto Carlos quem o apresentava. Ficamos eu e a Wanderléa. O Roberto ganhou um programa próprio, também na Record, em horário noturno, que chamam de horário nobre. O nome acho que era “Roberto Carlos Especial”, ou algo parecido. Com isso, o “Jovem guarda” já tinha perdido um pouco da magia, não tinha os mesmos pontos no Ibope, já não era no Teatro Record, que pegou fogo. Passou a ser no Teatro Paramount, na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Então, a coisa, a intensidade e a expectativa dos fãs foram aos poucos diminuindo. Em um domingo, quando chegamos para fazer o programa, fomos comunicados de que aquele seria o último. Ai foi uma surpresa muito grande para mim e para a Wanderléa, porque éramos muito jovens, inocentes, e acreditávamos que aquela festa nunca iria ter fim,que aqueles domingos iriam continuar para sempre.

CE – O final do “Jovem guarda” mexeu muito com sua cabeça?
EC – O Roberto foi para San Remo participar do festival. Também começou a ter início sua carreira internacional, e eu fiquei meio perdido. Já não tinha mais o programa, não encontrava as mesmas pessoas. Então resolvi voltar para o Rio. Eu disse: “pelo menos aqui tenho meus parentes, meus amigos”. Mudei de gravadora, me casei e mudei de estado. Três coisas definitivas na minha vida. Graças a Deus recomecei minha vida depois daquela euforia toda. Foi muito parecido com a história da Cinderela: a carruagem virou abóbora.

CE – Erasmo, desde a Jovem Guarda você teve a imagem de tremendão. Como foi fazer o papel de um bicha no filme “Os machões”?
EC – Foi legal, uma experiência boa. Aliás, eu adoro cinema e aprendi muito com cada filme que fiz. No “Diamante cor-de-rosa” eu tive aulas de alpinismo, e viajei pelo mundo inteiro. No “300 km. por hora”, eu tive todas as noções sobre corrida de automóvel, podium e detalhes das curvas de Interlagos. Foram coisas e descobertas que o cinema me proporcionou. Em “Os machões” aprendi a desfilar como modelo, tive aulas equilibrando livro na cabeça, ficamos um mês tendo aulas de como se comportar em um desfile; eu, o Reginaldo Farias e o Flávio Migliaccio. Foi uma grande experiência e um papel que gostei muito de fazer. Inclusive ganhei o “Coruja de Ouro” como melhor ator coadjuvante, em 1971. É o troféu que eu mais gosto, porque é o único que tenho que não ganhei com a música.

CE – Eu te considero um grande ator. Por que você não tentou conciliar sua carreira de cantor com a de ator?
EC – Bicho, é difícil você fazer planos no Brasil. Você vive de convites, de momentos que o país atravessa. Se disco não está vendendo, você não vende; se a indústria do cinema está um caos; se não houver shows, nada se pode fazer. Então você vive de acordo com os momentos do país. Depois de “Os machões” tive muitos convites para fazer cinema mas não teve nenhum filme que me agradasse. O David Cardoso, que é muito meu amigo, cansou de me convidar para fazer pornochanchada mas isso não me agradava, não queria fazer. Eu ia fazer “As sete vampiras” mas não achei o roteiro legal. Fiz “O cavalinho azul”, fora os filmes de música, como o “Hollywood Rock”, o primeiro do gênero, nos anos 70, no antigo campo do Botafogo, em General Severiano. Foi um show feito por Raul Seixas, eu e Rita Lee, filmado para o cinema. Embora o pessoal que faz o “Hollywood Rock” atualmente não reconheça aquele show foi o primeiro com esse nome. E também participei de dois filmes do Roberto Carlos.

CE – Durante o “Jovem guarda” foi lançada uma indústria de roupas e material escolar com a marca Calhambeque.Deu para vocês faturarem algum dinheiro?
EC – Bem, o Roberto e a Wanderléa eu não sei, mas não ganhei um tostão com nada daquilo. Eu quis deixar o dinheiro lá, para depois pegar tudo que tinha direito para comprar um apartamento. E aí o tempo foi passando, a empresa faliu, e quando fui receber o dinheiro não me pagaram.

CE – Quem colocou em vocês os apelidos de Brasa, Tremendão e Ternurinha?
EC – Foi a agência Magaldi, Maia e Prósperi que cuidava da grife “Jovem guarda”. Os donos dessa agência montaram uma subsidiária que só tratava dos nossos produtos. Inicialmente era Roberto, Erasmo e Wanderléa, e ai escolheram a grife de cada um. O time do Palmeiras, na época, fazia um tremendo sucesso com a chamada Academia e eles eram chamados de Tremendões. Aí me acharam parecido com Tremendão e escolheram esse nome para ser meu apelido.

CE – Como foi a transformação das músicas de vocês, passando do rock para as baladas dos anos 70?
EC – Não foi uma coisa da noite-para-o-dia. Foi acontecendo. Entraram outros interesses inclusive os das gravadoras. Porque os rocks tocam muito nas rádios mas não vendem disco. A música romântica vende, e aí as gravadoras começam a pedir composições desse tipo, mostram com números, fazem comparações entre a vendagem de músicas românticas e de rocks. Embora seja uma necessidade fazer rocks, o que faço até hoje, de vez em quando tem o lado comercial. Afinal, o artista vive de disco, e se o disco não vende ele não toca no rádio. Aí o público não toma conhecimento, e ele não faz show. Então, o disco é a mola do artista, e quem não vende disco não faz outras coisas, perdendo outros segmentos de sua vida.

CE – “Sentado à beira do caminho” é o carro-chefe de seu repertório. Como foi a composição dessa música?
EC – Nós a fizemos em 1969, e talvez tenha sido a música em que eu e o Roberto ficamos trabalhando por mais tempo, por cerca de três meses. Inclusive tem uma história engraçada: nessa época eu morava em São Paulo e compunha na casa do Roberto, no Morumbi. Quando a gente está trabalhando o Roberto sempre dá uma cochiladinha, para descansar. Lá pelas três ou quatro horas da manhã ele me falava: “Olha, eu vou dar uma deitada, mas conta no relógio 15 minutos e aí você me acorda”. A gente estava com a música empacada, isto é, não conseguíamos achar um final, a segunda parte não saía. Eu acordei o Roberto, e ai ele pulou da cama, passou a mão nos olhos e disse: “Preciso acabar logo com isso, preciso lembrar que eu existo”. Aí conseguimos terminar a composição. Até hoje acho que o Roberto sonhou com essa música. É a única explicação que tenho.

CE – Erasmo, você e o Roberto são muito emotivos. É verdade que quando acabam de fazer uma música vocês começam a chorar? Por que?
EC – Geralmente é uma sensação de alívio, tipo nós conseguimos, nós podemos, é mais um filho no mundo (porque consideramos a música como um filho). É uma coisa de realização, é uma mistura de felicidade. Ao mesmo tempo agradecemos a Deus: nós estamos agradecendo pela nossa capacidade individual. Se o resultado é bom, a gente fica feliz. Quem sabe se essa música vai contribuir para alguém? Quantas músicas você ouve que de alguma forma contribuíram para sua vida? Às vezes você brigou com sua namorada, sua mulher... Então ouve uma composição no rádio e deixa o orgulho de lado, faz um carinho nela, manda flores. Então você fica de bem com sua companheira. Tudo isso nós pensamos quando estamos trabalhando. Então, quando acabamos a composição é uma mistura de emoções na gente. E aí só temos uma forma de demonstrar: é nos abraçando e chorando.

CE – Vocês têm algum método para compor?
EC – Tem vários tipos. Às vezes a gente já tem um tema e desenvolvemos a idéia na cabeça. Muito raramente as coisas surgem na hora, o tema surge naquele instante em que sentamos para trabalhar e dizemos: e agora, o que vamos falar? Sempre temos algo pensado. Quando o disco é do Roberto, ele coordena as composições. Já nos meus discos os trabalhos são coordenados por mim. Um sempre ajuda o outro na composição. Mas geralmente a gente faz um laboratoriozinho, um teatrinho, antes de fazer uma música. Por exemplo: a música “O portão”: o cara está há muito tempo fora de casa; aí ele chega em casa; chegou onde? Ao portão. E vamos brincando com o tema, desenvolvendo a idéia, pensando em tudo que poderia acontecer naquele momento. Qual a primeira coisa que o cara vê? O cachorro abanando o rabo. Mas como é que vamos falar isso na música, já que é uma imagem feia? Então vem logo a idéia: o cachorro sorriu latindo. Aí o personagem vai entrando pela casa, encontra o retrato dele amarelado pelo tempo... E vamos desenvolvendo a idéia.

CE – É comum acontecerem brigas em qualquer relação, seja marido-mulher, pai-e-filho, avô-e-neto.Vocês já tiveram alguns desentendimentos. Mas alguma dessas brigas colocou em risco a amizade de vocês?
EC – Na época da Jovem Guarda tivemos uma briguinha, um mal-entendido que aconteceu e que acabou com a parceria. Se você reparar, grande parte das músicas do disco “Roberto Carlos em ritmo de aventura” foi feita só pelo Roberto, como: “Por isso corro demais”, “Como é grande o meu amor por você”, “Quando”. E eu fiz “Prova de fogo”, uns sambas, mas tudo separado. Ele fazia as músicas dele, e eu as minhas. Ficamos um ano sem a parceria, e ele foi filmar o “Em ritmo de aventura”. Mas chegou um dia em que estava em casa, em São Paulo, e recebi uma fita dele com um bilhete: “Erasmo, esse é o tipo de letra que você faz em dez minutos. Vamos esquecer toda essa briga, essa coisa toda”. Ele me mandou uma fita com uma melodia, e fiz a letra para a música “Eu sou terrível”.

CE – Como é o processo de composição de vocês? A música sai junto com a letra ou são feitas separadamente?
EC – Qualquer coisa; não há uma forma específica. Sou músico e letrista e o Roberto é a mesma coisa. Dependendo da necessidade a gente se adapta ao que está sendo trabalhado no momento.

CE – Roberto Carlos considera “Detalhes” a música mais bonita que vocês fizeram. Você também tem essa opinião?
EC – É inesquecível, bicho, mas há outras lindíssimas, como “Cavalgada”. Ela nem precisa de música.Você, lendo a letra, vê que é uma verdadeira poesia. “Fera ferida”, eu gosto muito. “As baleias”, você pode até colocar em um quadro; é um poema. O engraçado é que o Roberto não gostou das gravações feitas por ele de “Cavalgada” e de “Fera ferida”. Não estou dizendo que ele não tenha gostado da letra ou da melodia. Mas ele acha que a gravação poderia ser melhor, que ficou faltando alguma coisa. Como esquecer de “Jesus Cristo”? Há músicas muito importantes para a gente. Mas de “Detalhes” nós gostamos porque é uma música romântica que fala de quase tudo. Depois dela fica difícil falar de amor, apesar do amor e do ato sexual serem a mesma coisa. Mas ele é feito de forma diferente a cada dia. Então, nós temos que procurar formas diferentes de falar o que já foi abordado antes. E depois de “Detalhes” ficou mais difícil, porque trabalhamos em cima de muitas imagens.

CE – Vocês demoraram muito trabalhando em “Detalhes”?
EC – Demoramos, mas não chegou aos três meses de “Sentado à beira do caminho”; ela foi mais rápida.

CE – Como você recebeu a homenagem de Maria Bethânia, que gravou um disco com músicas suas e do Roberto Carlos?
EC – Foi lindo, foi muito bonito! Inclusive, a Nara Leão já tinha gravado um disco com nossas músicas, e uma cantora, Sônia Melo, também já tinha nos homenageados. Nunca mais haviam feito nada, até que veio esse trabalho da Bethânia. Quando eu soube que ela ia gravar um disco com músicas nossas, foi uma maravilha, porque tenho uma admiração muito grande por ela, que é uma excelente intérprete e uma grande artista. Fiquei emocionado quando soube e quando ouvi o disco.

CE – Quando você ouviu o disco pela primeira vez?
EC – Eu fui convidado pelo produtor da Polygram, Max Pierre, para ouvir o disco. Eram tipo onze-e-meia da noite quando ele ligou para a minha casa e disse que tinha acabado de receber a gravação. Eu fui lá, chorei muito e pedi para o Max ligar para a Bethânia, porque eu queria falar com ela. Ele ligou, mas eu estava tão emocionado que não tinha elogios para fazer. Também, falar que o trabalho estava bonito seria redundância. Aí, eu brinquei com ela: “Como é que você coloca acordeon francês na música de um cara que nasceu na Tijuca?” Ela achou isso engraçado.

CE – Vários compositores reclamam que em algumas épocas não conseguem compor e que ficam com medo de nunca mais conseguirem fazer música. Isso já aconteceu com você? Que sensação é essa?
EC – Já, sim, muito. É o que chamo de entressafra, quando você acaba de fazer um trabalho, logicamente nele você esgotou uma série de pensamentos, de novos temas. Se daí a pouco você tem que fazer outras músicas, dá um branco. E isso apavora, porque você pensa que nunca mais vai conseguir fazer nada. O pior é que há momentos em que essa entressafra dura anos. Eu melhorei muito dessa síndrome quando soube que isso também acontecia com os outros. Pensava que era só comigo. Como não faço psicanálise, penso que só comigo acontece... Quando sei que certas coisas também acontecem com os outros colegas, isso me acalma.

CE – Quando você e o Roberto se encontram hoje, nos raros momentos que vocês têm, falam de nostalgia, do passado? Vocês param para recordar o que aconteceu em outras épocas?
EC – Não. Só uma vez ou outra. A gente não é saudosista. Tem tantas coisas do momento para comentarmos, que falar do passado é uma raridade. Às vezes, surge aquela: “Se lembra do fulano? Pois é, encontrei com ele”. Nós não vivemos do passado, nem ficamos lamentando nada, tipo “ah que saudades da Jovem Guarda...” Quando estamos juntos, temos que trabalhar, fazer as músicas, colocar em dia as fofocas atuais.

CE – Erasmo, como foi feita a música “Amigo”, e o que você sentiu quando a ouviu pela primeira vez?
EC – A única participação que tenho nessa música é que, uns dois ou três anos antes de ser gravada, eu tinha feito uma melodia. Eu comentava com o Roberto que um dia iria fazer uma música naquele gênero. Mas o tempo passou. Um belo dia, o Roberto pediu a melodia emprestada e levou para os Estados Unidos. Ele fez a letra, em que não tenho nenhuma participação, e, quando terminou de gravar, ele foi à minha casa, em Ipanema. Combinou tudo com minha ex-mulher, Narinha, colocou a gravação no gravador e pediu que ela me chamasse. Ele disse: “Ouve isso, vê se gosta”. Aí não precisou dizer mais nada: foi aquela choradeira total. A cena que vocês viram no Especial, na Globo, já tinha acontecido antes. Mas “Amigo” também me proporcionou outros momentos bonitos e muitos choros, como, por exemplo, quando ela foi cantada para o Papa João Paulo II, no México. Teve, também, a despedida do Roberto Dinamite, no Maracanã; eu estava lá e não consegui segurar o choro.

CE – Vocês imaginavam que suas carreiras fossem chegar tão longe?
EC – Não, porque a gente nunca pode imaginar o dia de amanhã. A nossa carreira, como a do jogador de futebol, é muito incerta. Então, não sabemos o que vai pintar em nossas vidas, como estará a situação geral. Nós vivemos da nossa mente; o jogador de futebol também vive da cabeça, dos pés e até das mãos, se for goleiro. Nossa carreira é muito incerta. No início era pior, porque estávamos começando. Quem podia imaginar que íamos nos dar bem na vida, o sucesso do programa “Jovem guarda”, que o Roberto iria ser um astro internacional como é hoje – o maior artista da América do Sul, graças a Deus! E que eu seria o compositor que sou atualmente... Ninguém poderia adivinhar naquela época!

CE – Erasmo, você tem uma carreira solo e é considerado como o maior roqueiro do Brasil. Não te incomoda sempre ter que falar do Roberto nas entrevistas?
EC – Não. Eu fico feliz, porque o Roberto sempre fala de mim, também. Isso é importante. Algumas vezes já me pararam na rua e me confundiram com ele. Um dia, perguntei ao Roberto se não acontecia à mesma coisa com ele. Ele disse: É claro, bicho, já me pediram autógrafo como se eu fosse você”. É o nervosismo do fã quando vê o ídolo. O que me aborrece é fazerem comigo entrevista por tabela. Como os repórteres não conseguem entrevistar ou saber coisas da vida pessoal do Roberto, me procuram para saber fofocas. Outro dia, fiz uma entrevista para a revista Veja, fiquei com o repórter uma tarde inteira, em minha casa, falando coisas boas do Roberto, e quando a reportagem saiu não foi publicada uma linha do que falei. Sei que essa entrevista sua é sobre o Roberto Carlos. Afinal, o nome do grupo é “Um Milhão de Amigos”. Por isso, estou tendo o máximo prazer de conversar com você. Mas essa reportagem da Veja me magoou muito. Não saiu nada porque não contei nenhuma fofoca da vida dele, e isso é o que eles querem saber. Só falei do lado bom do Roberto; não tenho culpa se para mim ele não tem lado ruim. Por isso não posso falar sobre o que não sei e que não conheço do Roberto. É assim que eu o vejo.

CE – Você é filho único por parte de mãe. Pode-se dizer que o Roberto é um irmão para você?
EC – É por isso que nós temos esse tratamento de irmão. Costumamos dizer que só não somos irmãos pelo sangue, mas encontramos uma maneira de dizer que fomos muito próximos em outras encarnações e que estaremos unidos em futuras. Jamais tivemos pretensão de que não vamos reencarnar. Por isso sempre afirmamos que não somos unidos apenas pelo sangue. Hoje em dia a gente procura se ligar pela parceria. Ele também é padrinho do meu filho Gugu e eu sou padrinho do Segundinho. Com isso estamos tornando cada vez mais forte os nossos laços.

CE – Você se chama Erasmo Esteves. Por que seu nome artístico é Erasmo Carlos?
EC – Porque Erasmo Esteves não é um nome artístico bonito, que soe bem. Como eu tinha dois amigos Carlos – o Roberto e o Imperial – fui influenciado a escolher Erasmo Carlos, que ficou um nome forte.

CE – Erasmo, no ano que vem a Jovem Guarda completará 30 anos. Vocês vão fazer alguma festa ou apresentação pela data?
EC – Se tiver festa, vai ser uma festa íntima, e show... nem pensar. Apenas rever os amigos daquele tempo, se abraçar... Aí sim, relembrar o passado, apresentar nossos filhos, mas nada de show.

CE – E como está o Erasmo Carlos, agora que é vovô?
EC – Erasmo vovô está muito bem. Quando o meu neto nasceu, eu até falei para o Roberto: “Bicho, não dói!”

CE – Erasmo, me defina Roberto Carlos.
EC – Pô, isso é difícil. Sendo meu irmão do jeito que ele é, torna-se pessoa de quem só vejo o lado bom. Não vejo nada ruim no Roberto. Para mim, ele só tem bondade, palavras de carinho com as pessoas, palavras de fé e de força. Só não posso falar dele como homem, no sentido sexual, porque graças a Deus eu e o Roberto não somos bicha; nós gostamos muito de mulher. Somos muito unidos, mas nessa hora é cada um para o seu lado. Mas como ser humano e como artista, o que sei é o que todo mundo sabe: ele é imbatível, e pessoas como ele só aparecem de duzentos em duzentos anos.


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