GETÚLIO CÔRTES
entrevista a Carlos Eduardo F.Bittencourt
exclusiva para o Grupo Um Milhão de Amigos

13.05.1998




Sempre tive vontade de entrevistar pessoas
que tiveram especial importância na carreira de Roberto Carlos.
Com certeza Getúlio Cortes, o “Negro Gato”, era uma delas.
Foi com grande alegria que consegui encontrá-lo.


CE – Getúlio, é você o Negro Gato?
GC – Dizem que sim, mas quem ficou conhecido como o negro gato foi o Luiz Melodia, que também gravou essa música.

CE – Como você conheceu Roberto Carlos?
GC – A primeira vez que vi Roberto foi em 1961, num programa chamado “Festival de ritmos”, na Rádio Mayrink Veiga, um programa do Isaac Zaltman. Muitos jovens que se iniciavam no rock participavam dele. Não era um programa de roqueiros mas antecedia o “Hoje é dia de rock”, que era a coqueluche da época. Roberto cantava “Malena”, “Suzie”, “Parei na contra-mão” e outras canções que já começavam a despontar lançando seu nome para o sucesso. Muitos cantores começaram no “Hoje é dia de rock”, mas a gente sabe que Roberto começou a cantar na Rádio Nacional.

CE – Nessa época você já compunha?
GC – Já tinha feito umas musiquinhas, mas eram inexpressivas. A primeira pessoa que me deu força para compor foi o Renato Barros, do “Renato e Seus Blue Caps”.

CE – O que significou para sua carreira ter suas músicas gravadas por Roberto Carlos?
GC – Muito! Levei um susto porque nunca esperava que ele fosse me pedir uma música para gravar. Eu fazia música como uma forma de estar no meio daqueles “caras”. Tornei-me muito amigo do Renato e, como ele gravava com Roberto, acabei conhecendo Roberto Carlos.

CE – Como foi a escolha da primeira música?
GC – Fui ao estúdio onde ele estava gravando. Renato já tinha lhe dito que eu compunha e ele, então, pediu para ouvir alguma coisa. Mostrei “Noite de terror”, que ele gravou em 1964. Como era uma época de músicas ingênuas, Roberto gostou da historinha e do balanço.

CE – Você concorda que suas musicas se pareçam com histórias em quadrinhos?
GC – Eu sempre procurei fazer músicas diferentes das de Roberto e Erasmo, porque nunca poderia competir com eles fazendo músicas românticas, então procurava fazer algo diferente. Era isso que agradava e também é por isso que agora não entrego mais músicas para Roberto Carlos.

CE – Como assim? Explique melhor?
GC – É que as pessoas fazem para ele o mesmo estilo romântico de suas composições. Só que ninguém consegue superá-lo.

CE – Roberto mudava muito as suas músicas?
GC – A única música em que ele fez modificações foi “Negro gato”. Havia uma frase que dizia “...e nessa minha vida sempre dei azar”. Roberto a mudou para “...essa minha vida é mesmo de amargar”. Fora isso, que eu me lembre, ele não mexeu em nenhuma outra. Eu o conhecia muito e sabia exatamente as palavras que ele gostava e qual era o seu estilo de cantar.

CE – “Negro gato” foi a sua música de maior sucesso?
GC – Foi. Depois veio “Pega ladrão”. Uma outra foi “Quase fui lhe procurar”. Essa foi uma canção que fiz despretensiosamente, mas que caiu no gosto popular. Roberto gosta tanto que até a regravou em 1995.

CE – Por que Roberto Carlos nunca mais gravou nenhuma música sua, inédita, depois de “Por motivo de força maior”, em 1976?
GC – Porque o ciclo de autores que compõem para ele mudou. Você pode observar que de 1977 para cá os autores passaram a ser quase sempre os mesmos: Isolda, Mauro Motta, Carlos Colla e Paulo Sérgio Valle. Talvez até ele mesmo às vezes pense em voltar a gravar os compositores da antiga, porque além de “Quase fui lhe procurar” ele também regravou “Custe o que custar”.

CE – Como foi para você passar das músicas tipo aventura para as românticas, como “Atitudes”, “Por motivo de força maior” e “Quase fui lhe procurar”?
GC – Primeiro eu percebi que Roberto estava mudando seu tipo de música e entendi que eu teria que mudar minhas composições. Aconteceu, também, de o Evandro Ribeiro, diretor da CBS e quem produzia os discos do Roberto Carlos, me pedir uma linha mais suave. Penso que a primeira que fiz nesse gênero foi “O tempo vai apagar”, uma parceria com o Renato Barros. Na verdade o Renato abriu mão de ter seu nome no disco em favor de seu irmão, Paulo César Barros. Essa música emocionou muito o Roberto Carlos, que chegou a chorar quando a gravou.

CE – Como era o seu contato no dia-a-dia com o Roberto?
GC – Eu ia muito à casa dele, saíamos muito. Falávamos pouco de música e de disco. Lembro-me um dia, acho que 1968 ou 1969, véspera do Natal, quando liguei para ele e fui chamado para ir à sua casa para conversarmos. Hoje em dia o contato é quase nenhum. Ele é muito ocupado e está sempre cercado de muitos assessores. Como não gosto de parecer “mala”, não fico forçando contato.

CE – É verdade que você chegou a produzir um programa dele na TV Rio?
GC – Produzir não, mas dei uma assistência ao Carlos Manga, o legítimo produtor. Esse programa foi depois da jovem guarda e chamava-se “Roberto Carlos em alta tensão”. Foi o próprio Roberto que me pediu para ajudar. Como as instalações da TV Rio eram muito precárias, o programa não teve muito sucesso. Ficou no ar pouco tempo, em torno de um ano.

CE – A partir de quando seu contato com o Roberto Carlos foi ficando mais raro?
GC – A partir de 1976, quando pela última vez ele gravou uma música minha. Depois eu ainda cheguei a entregar-lhe umas duas músicas mas me parece que já não agradaram. Isso eu admiro no Roberto: se ele não gosta de uma música ele fala na hora, não fica enrolando. Foi a partir daí que ele começou a mudar o ciclo de compositores. É um direito que ele tem, deve fazer o que acha melhor para a sua carreira.

CE – Como aconteceu a regravação de “Quase fui lhe procurar”?
GC – Para mim foi uma surpresa muito agradável. Eu não esperava. Acho que ele quis me prestar uma homenagem, numa época em que eu estava passando por uma situação difícil.

CE – Como você soube?
GC – Sérgio Motta, irmão do Mauro Motta, é muito meu amigo e me disse que Roberto queria me ver. Fui ao estúdio onde ele estava gravando. Foi um encontro muito legal. Ele me perguntou se eu tinha alguma música nova. Eu havia feito uma com o Hélio Justo, mas era num estilo muito antigo e Roberto não gostou. Então resolveu regravar “Quase fui lhe procurar”.

CE – E quando você ouviu a regravação pela primeira vez?
GC – Foi no rádio, mas antes houve um momento de grande alegria na minha vida. Eu liguei para a Sony, para saber dos direitos autorais, e recebi um recado para ligar para o escritório do Roberto, em São Paulo. Eu estava na Telerj, em Madureira, e de lá mesmo liguei para São Paulo. Eu não sei como eles me colocaram em contato com o Roberto, que estava no estúdio em Miami. Falei direto com ele, que me contou que tinha regravado a minha música. Imagine que ele ainda me perguntou se eu estava feliz. Eu nem mesmo acreditei que estava falando com ele e perguntei: É você mesmo, Charles? É assim que eu o chamo, Charles.

CE – Depois da regravação de “Quase fui lhe procurar” não deu vontade de fazer músicas para ele gravar novamente?
GC – Eu tenho alguma coisa pronta mas para disco deste ano não adianta mais, já passou a época. Roberto gosta de receber composições novas em fevereiro ou março.

CE – Na sua opinião, qual a importância de Roberto Carlos para a música brasileira?
GC – Uma importância muito grande. Roberto deu uma guinada na música brasileira, que vivia naquela mesmice. Eu gosto muito de bossa nova e de outros estilos, mas as músicas dos anos 60 revolucionaram o mundo, com os Beatles, e aqui no Brasil apareceu Roberto Carlos com a sua jovem guarda.

CE – Vamos falar um pouco sobre cada música sua gravada pelo Roberto Carlos?
Noite de terror: Naquela época eu via muitos filmes de terror e gostei da idéia do Frankstein. Comecei a desenvolver a música, que tinha que ser comercial. Para criar a história me imaginei num castelo com aquelas figuras de terror.
O feio: A idéia foi do Renato Barros, meu parceiro na música, que conhecia um cara que trabalhava num posto de gasolina e que era muito feio. Renato fez de 60 a 70 por cento da canção e, como não conseguia terminar, eu a terminei.
Pega ladrão: Enfeitei uma história verdadeira. Eu estava num trem, onde alguém meteu a mão num cordão de ouro de um rapaz. Aí surgiu a música com a idéia do coração em um cordão e uma menininha, o broto do portão, já que não ficava bem falar que a aventura havia acontecido num trem. Gosto de transportar um fato verídico para uma história de garotas.
Negro gato: Muita gente pensa que essa música é uma crítica social pela situação do negro na sociedade. O Erasmo, inclusive, fala que no meu subconsciente eu quis fazer isso. Não é verdade. Eu morava em Madureira, onde havia um gato que não me deixava dormir. Todo dia eu jogava pedra no gato. Parece que ele marcava a hora para chegar ao telhado do meu quarto. Daí nasceu a música.
O gênio: Também foi desenvolvida em filmes. Gosto muito de cinema e de desenho animado. Essa canção veio de um filme que vi.
O sósia: Foi o próprio Roberto Carlos quem me inspirou. Naquela época surgiram cantores tentando imitá-lo no jeito, na maneira de cantar e na roupa. Foi uma crítica que fiz a tudo isso e a todos eles.
Quase fui lhe procurar: Foi uma canção despretensiosa que nunca eu imaginei que seria um sucesso. Roberto gostou tanto que chegou a tirar duas músicas do disco para colocá-la.
O tempo vai apagar: A letra é toda minha e a melodia, meio barroca e muito harmoniosa, é do Renato Barros, que a deu para o Paulo César, seu irmão, para o ajudar.
Nada tenho a perder: É um bolero fraquinho, das músicas mais fracas que já fiz. Não sei porque Roberto gostou dela. Ele disse que a gravaria por causa da letra. Como eu estava meio “duro”, achei ótimo.
Uma palavra amiga: É uma letra triste, mas eu não estava apaixonado. Não é baseada em ninguém.
Eu só tenho um caminho: Uma das minhas músicas mais trabalhosas. Eu fui ao estúdio da CBS, e Roberto havia gravado “Amada amante” para a coleção “As 14 mais”. A canção sairia também em compacto e o Evandro Ribeiro me pediu uma música nova para o outro lado.
Por motivo de força maior: Dificilmente vou fazer uma música igual a essa. Acho a minha melhor letra, embora a canção preferida seja “Eu só tenho um caminho”.

CE - Getúlio, como você define Roberto Carlos?
GC – Roberto Carlos é um grande irmão, um amigo maravilhoso, para mim é um pai. Já me deu várias demonstrações de apreço. Em 1967 tive uma forte estafa e fui parar no hospital. Ele me deu total apoio e ficou esperando uma música para gravar. Foi “O sósia”, que fiz no hospital. Enfim, isso é uma demonstração de que ele não se esqueceu de mim. Roberto me ajudou muito e ficou do meu lado nessa época, uma fase meio triste da minha vida. Meu carinho por ele é eterno e não se resume ao fato de ele gravar uma música minha ou não.

PÁGINA INICIAL VOLTAR ENTREVISTAS COMO É BOM SABER