ROBERTO CARLOS
entrevista concedida a Carlos Eduardo F.Bittencourt para o
Grupo Um Milhão de Amigos

dezembro 1995




No dia 30 de novembro, um antes do lançamento de seu novo disco,
Roberto Carlos recebeu a imprensa para uma coletiva no Hotel Transamérica, em São Paulo.
Através da Rádio Catedral, onde trabalho, fui convidado pela Sony Music
para fazer minha primeira entrevista com o Rei.
Também representando o Grupo Um Milhão de Amigos, embarquei na Ponte-Aérea das 13 horas
e cerca de 50 minutos depois estava em São Paulo.
Eu e mais quatro jornalistas do Rio nos juntamos à cerca de cem jornalistas de todo o Brasil,
a grande maioria de São Paulo.
Através da Assessora de Imprensa de Roberto, Ivone Kassu,
tomamos conhecimento de que às 16h30m, haveria a audição do novo disco.
Meia hora depois, Roberto desceria da suíte onde estava.
Nesse tempo, ele daria uma entrevista ao vivo para a Rádio 98 FM, do Rio,
que já tinha instalado toda a aparelhagem de transmissão na suíte presidencial (ou real?)
Só que nesse espaço de tempo, a TV Globo quis fazer entrevistas exclusivas com Roberto.
Ao todo eram três repórteres globais para diversos programas e telejornais.
Ao invés de aparecer na sala, toda decorada com posters, capas e contracapas do novo disco,
às 17h, Roberto foi recebido às 18h45m.
Brincando, descontraído e se desculpando pelo “pequeno atraso”.
Primeiro foram cerca de quatro minutos de fotos, nos mais diferentes ângulos:
em pé, sentado, virando-se para a direita e para a esquerda, e até fazendo sinal de positivo com o polegar,
bem à moda da Jovem Guarda.
“É uma brasa, mora”, e recusou os óculos que lhe ofereceram, na onda do seu novo sucesso.
Os primeiros 45 minutos foram para as perguntas da imprensa escrita, somente.
Depois ele foi para uma outra sala e gravou com as repórteres de TV.
Em seguida, foi a vez das rádios. Para todas elas, Roberto gravou, apenas, mensagens natalinas
e deixou seu abraço para os comunicadores.
Comigo, Roberto abriu uma exceção e falou sobre seu trabalho, seu disco e planos para 96.
É essa entrevista que você vai ler em seguida.
Resolvi colocar a primeira parte da entrevista exatamente como ela foi feita.
Poderia juntar várias perguntas numa só ou então agrupar as respostas sobre o mesmo tema.
Mas preferi deixar na íntegra, como ela foi feita:
perguntas boas e outras completamente ridículas.
Depois vocês vão saber o que eu ouvi de Roberto Carlos com exclusividade.


- Roberto, fala-se muito sobre o cancelamento do show que você faria na Praia de Copacabana no reveillon. O que há de verdade nisso tudo?
RC - O que sei de tudo isso é que a primeira vez que me propuseram que fizesse um show de reveillón no Rio eu disse que seria muito difícil porque tenho um costume de muitos anos de passar o reveillón em casa, com minha família e meus amigos. A gente gosta de rezar na passagem do ano. Mas depois eu passei a considerar a idéia de fazer o show, desde que pudesse estar em casa por volta de meia-noite. A única condição que coloquei para iniciar as conversações sobre a possibilidade do show foi essa. Acontece que muita coisa foi falada, muita coisa foi dita, mas nunca me veio realmente confirmada a possibilidade de eu estar em casa por volta de meia-noite, pois para mim a passagem de ano é a uma hora da manhã. Não considero o horário de verão, considero o horário normal, e se estivesse lá até meia-noite, tudo bem. Mas isso nunca foi confirmado. O tempo passou, eu fiquei nos Estados Unidos mixando o disco e, quando cheguei aqui, encontrei um monte de conversa a respeito de que tinha cobrado em torno de dois mil de reais. Mas nunca partiu de mim uma proposta baseada em números, vamos dizer, quanto seria. A minha intenção era fazer o show se houvesse a possibilidade de estar em casa a tempo. Afinal são cerca de dois milhões de pessoas na praia, e a única coisa que queria era condições de estar em casa, porque sair de carro seria difícil, e como não tem heliporto perto, então também não poderia pousar helicóptero.

- De onde surgiram então os quase dois milhões de reais?
RC – Não sei de onde saíram esses dois milhões. Inclusive, uma outra condição que coloquei caso se confirmasse a possibilidade de estar em casa por volta de meia-noite era que esse show seria beneficente. Eu não gostaria de receber dinheiro algum pelo espetáculo e queria indicar as entidades para que a Prefeitura do Rio doasse o dinheiro. Seriam entidades da cidade. De um modo geral, a minha idéia eram os hospitais carentes.

- No Rio fala-se muito que o prefeito César Maia lança factóides para a imprensa. Você pode ter sido vítima de um factóide desses?
RC – Bom, a verdade é que não estive participando de tudo isso, porque estava fora, entende? E quando cheguei já encontrei todo esse clima, que estaria pedindo isso ou aquilo, ou que o Dody estaria pedindo isso ou aquilo. De onde surgiram esses números eu não sei.

- Das muitas matérias que saíram sobre você em novembro, foi dito que tocaria piano numa cena gravada no Chile para o seu Especial. Existe realmente isso?
RC – Bom, isso depende muito daquilo que estiver programado, do que o número pede. Por exemplo, se eu fizer o número de violão tocando “Detalhes”, como fiz no programa do Jô, aí eu vou aparecer tocando guitarra... guitarra, não, violão. Agora, piano eu tenho que ensaiar um pouco mais, porque não toco piano. Para fazer um número de piano tenho que ensaiar muito, porque toco apenas para compor, faço os acordes, um ritmo, mas não sou um pianista para me apresentar em público. Gosto de tocar violão. Gosto de tocar piano, mas faço isso em casa; em público toco muito pouco.

- Eu queria saber se você acompanhou o movimento “Reage Rio”, se você tinha interesse em participar da passeata e por que você não participou? E, ainda, como está vendo a violência na cidade onde você mora?
RC – Eu não participei porque no dia fiz um show em Brasília. Então não pude participar. Eu acho que toda iniciativa, todo movimento em prol da paz no Rio de Janeiro é válido. Não só pela paz no Rio de Janeiro, mas no Brasil todo, principalmente em algumas cidades mais afetadas pela violência. Sem dúvida existe um problema muito grande no Rio, o que a gente lamenta profundamente, e se eu estivesse no Rio teria participado, principalmente para pedir, pelo amor de Deus, que as pessoas se sensibilizem com tudo isso e sintam que numa cidade as pessoas precisam de paz e tranqüilidade. As pessoas precisam de liberdade de ir e vir. Então, eu teria participado, sim, principalmente para pedir a Deus, junto com aquelas pessoas todas, que todos, pelo amor de Deus, pensem na paz dos moradores do Rio.

- Você já foi assaltado no Rio?
RC – Não, não, graças a Deus não.

- Foi publicado que você tem dois projetos para 96: um seria o lançamento de um disco com canções religiosas, outro seria um disco acústico.Você pensa nisso?
RC – Desde o início do ano que a gente estava pensando em fazer um disco acústico, mas este ano não foi possível. Vamos começar apensar nesse disco em 96. Nesse ano não haveria tempo hábil para fazer esse disco de forma alguma. Pensamos nele, mas pensamos pouco, não chegamos a pensar como ele será. Agora, partindo da possibilidade de gravá-lo é que a gente vai pensar como o disco deve ser, no seu formato. Já o disco de mensagem religiosa é um plano que pode ser feito de duas formas: uma são canções que ainda não gravei e outra seria uma compilação, seriam as canções-mensagens que já gravei colocadas num só disco. Seriam reedições, mas também pode se pensar na mesma coisa com outros arranjos.

- E o projeto de um disco “Roberto Carlos em Ritmo de Samba”?
RC – Não, isso não, pelo menos comigo cantando, não. Acho que você está falando de um disco que é um projeto da Sony, mas nesse disco eu participo só com as músicas.

- Você tem algum plano de fazer um disco com as músicas de outros compositores?
RC – Eu tenho pensado muita coisa em relação a disco. Por exemplo, esse cantando outros compositores é um disco que penso em fazer mas, antes dele, com certeza, sairá um disco de mensagens. Estou falando de discos extras, não do meu disco de fim-de-ano. Seria no meio-de-ano, uma coisa assim.

- Nesse seu selo “Amigo Records” você pensa em lançar outros artistas?
RC – Neste selo tenho possibilidade de lançar outros artistas. É preciso que eu tenha tempo, o que não está havendo muito, para pensar em quem lançar, em quem gravar. Mas pode ser que este ano a gente pense num artista para lançar um disco pelo “Amigo Records”.

- Já tem algum nome para inaugurar o selo?
RC – Não, porque de certa forma eu mesmo inaugurei.

- A Rádio Eldorado encabeça uma campanha contra a obrigatoriedade da “Voz do Brasil”. Eu queria saber sua opinião a respeito de o programa ser obrigatório.
RC – A obrigatoriedade da “Voz do Brasil”? Está ai uma coisa que nunca pensei com profundidade para responder assim. Não sei, é uma coisa que teria que pensar. Na verdade existe uma brincadeira do brasileiro, de que a gente não sabe quem ouve o programa. Mas sobre isso não pensei, apesar de não gostar muito dessa coisa de obrigatoriedade, mas nunca parei para pensar nisso e não quero me precipitar respondendo uma coisa de que possa me arrepender amanhã.

- Você já ouviu a “Voz do Brasil”?
RC – Às vezes, rapidamente, quando ligo o rádio está na hora do programa... A gente se esquece e ouve alguma coisa, tipo cinco minutos. E aí o papo rola e não continuamos a ouvir. Acho que todo brasileiro faz assim. Estou certo ou errado? Tenho um amigo que até brinca comigo e me convida para ir à sua casa por volta das 7h da noite. Eu pergunto para fazer o que e ele me responde para ouvirmos juntos a “Voz do Brasil”. Brincadeira, bicho!

- O fim-de-ano é de muito trabalho para você. Este ano você cumpriu tudo o que estava planejado?
RC – O fim-de-ano é sempre um momento muito especial para mim, de muito trabalho. Quando eu começo a fazer o disco eu paro tudo, vou para o estúdio e trabalho o tempo que for necessário para o disco ficar pronto o mais rápido possível. A idéia é, sempre, terminá-lo antes em relação aos anos anteriores. Temos conseguido terminar antes. Este ano, por exemplo, terminei dez dias antes do ano passado. Sem dúvida alguma é um momento de muita expectativa, de muita emoção, mas de tranqüilidade também, no sentido de ter feito um trabalho em que me empenho. Não tem hora e nada que me desconcentre do disco.

- Como surgiu o convite para gravar a música-tema dos Jogos Olímpicos de Atlanta?
RC – Isso aí foi um convite que recebi do Emílio Estefani e da Glória Estefani para participar desse disco das Olimpíadas. Eles me mandaram um fax, e logicamente topei. Estamos agora vendo quando é que eu posso ir gravar a minha parte.

- Porque você não participou das comemorações ao vivo dos 30 anos da Jovem Guarda?
RC – Provavelmente por algumas razões. Primeiro porque essas comemorações se intensificaram justamente no momento em que comecei o disco. Então, estando no estúdio todas essas horas e depois indo para Miami para a mixagem, que demorou muito, não participei. E em outras comemorações não me convidaram pensando que eu não teria tempo. Mas não estou aqui reclamando de nada. Não existe nada realmente de especial em não ter participado. Logicamente que no meu Especial de televisão nós vamos fazer uma referência importante aos 30 anos... 30 anos, puxa vida!

- Muito se falou quando a Polygram lançou a série de cinco CDs da Jovem Guarda, da sua ausência. Na verdade quais foram os motivos e o que você achou das gravações de suas canções?
RC – Eu não participei porque sou de outra companhia. Olhando pelo lado sentimental e pelo coração eu teria um prazer muito grande em participar, mas como sou da Sony, muitas coisas teriam que ser discutidas em relação à minha participação. Embora eu tenha um selo próprio, eu tenho obrigações com a Sony. Não foi nenhum motivo pessoal, inclusive o projeto é lindo, bonito a beça, e gostei muito.

- O que achou do Caetano Veloso cantando “O Calhambeque”?
RC – É o máximo. Caetano cantando “O Calhambeque”? É o máximo!

- Por que você está lançando nove e não dez músicas? Alguma superstição?
RC – Sabia que a superstição iria aparecer nesse pedaço! Não, não é superstição não. Eu, até este ano estava planejando fazer um disco de dez músicas. Tinha o play-back gravado. E não deu. Já estava muito em cima da hora e o fato das faixas serem relativamente longas, de mais de quatro minutos, atrapalhou. Se eu gravasse dez faixas teria que lançar o disco uma semana depois. Então resolvemos lançá-lo de novo com nove faixas. Mas tinha o propósito e gostaria que ele tivesse dez faixas.

- Fale da sua música “O charme dos seus óculos”. De onde veio a inspiração?
RC – Das mulheres que usam óculos, naturalmente... Na verdade não foi nenhuma em especial, mas pode ser que uma ou outra tenha me chamado à atenção. Pode ser não, com certeza me chamou a atenção usando óculos. Isso foi interessante: um dia eu estava fazendo um show, não me lembro a cidade, e vi que na platéia, naquele dia, havia muitos binóculos, pois o local era muito grande. E também havia muitas mulheres de óculos. Me chamou a atenção de que havia mais óculos do que o normal. E aí, no palco, no meio do show, pensei: poxa, as mulheres de óculos... poxa, as mulheres de óculos... Fiquei com aquilo na cabeça. Depois do show fiquei pensando que muita gente usa óculos e que existe uma certa resistência, principalmente das mulheres, em usarem óculos, por uma questão de vaidade. Quando na verdade isso não devia acontecer, porque os óculos também são um charme da mulher. Então pensei na razão dessa resistência das mulheres e das crianças, pois elas também relutam em usá-los. E as mulheres sempre pensam em colocar lentes de contato. E os óculos, na realidade, são um charme, logicamente sempre que a mulher escolhe um modelo que fique bem com o seu tipo de rosto, coisas assim. Pensei: então temos que valorizar os óculos, pois eles também significam um charme quando bem usados. Até tenho uma amiga, que não precisa usar óculos, que de vez em quando aparece com uns óculos e me diz que usa para fazer charme. E ela fica mais charmosa com óculos. Tive vontade de fazer a música e, quando apresentei o tema para o Erasmo, ele me perguntou o que iríamos dizer com isso. Falei que tinha muita coisa. Não, não temos que falar só dos óculos, não. Atrás dos óculos tem muita coisa. As mulheres têm muita coisa para se falar delas, por trás dos óculos. Foi assim que surgiu a canção. (Roberto brinca com uma repórter e pergunta por que ela tirou os óculos?)

- Como você viu e sentiu a agressão à imagem de Nossa Senhora Aparecida?
RC – Aquilo foi lamentável. Foi uma tristeza para mim, um golpe. Um golpe, uma tristeza, uma agressão. Nossa Senhora é a mãe de Jesus e nossa mãe, e ninguém gosta de ver a imagem e o retrato de sua mãe agredidos, chutados. Foi um absurdo. Realmente eu chorei quando vi aquela cena, porque achei um absurdo. Uma coisa que eu quero e faço questão de falar, principalmente depois desse episódio, é que nós, católicos, não adoramos imagens, para nós, são representações de Nossa Senhora, dos santos, de Jesus. Adoramos diante delas, mas com pensamentos elevados ao santo, à santa, a Nossa Senhora, a Jesus ou a Deus. Enfim, nós não adoramos imagens. Não é preciso que se use uma forma dessa para dizer às pessoas que não devem adorar imagens. Todos nós sabemos disso. Para mim foi horrível, e, mais uma vez digo, nossa mãe foi agredida. É lamentável.

- Frank Sinatra está fazendo 80 anos de idade. De certa forma com esse quadragésimo disco, você se sente o Sinatra brasileiro?
RC – Quem sou eu, bicho? Não, quem sou eu! Sinatra está muitos quilômetros na frente. Não, no quadragésimo disco eu me sinto muito feliz, muito contente com tudo que rola, mas não tenho de forma alguma a pretensão de me sentir um Sinatra.

- A exemplo de Sinatra e Elton John, você tem idéia de lançar um disco de duetos?
RC – Isso pode acontecer. A gente vive a época dos projetos. Quando se fala em disco, só se fala no projeto. Os projetos são pensados assim: como fazer um disco, dessa ou daquela forma. Enfim, tudo é possível, a partir do momento em que se pense em fazer um disco diferente do convencional de fim-de-ano.

- Você falou em lançar um cantor no selo “Amigo Records”. Esse cantor seria alguém consagrado ou uma revelação?
RC – Isso é indiferente; pode ser que eu pense num artista já consagrado ou num cantor ou cantora.

- Quem ainda não gravou músicas suas que você gostaria que gravasse?
RC – Olha, eu estou tão contente com as gravações que tenho tido que não penso em quem não gravou. Realmente, são tantos artistas importantíssimos que gravaram minhas canções que não paro pra pensar, porque as minhas músicas com o Erasmo estão tendo mais regravações do que realmente eu esperava. Estão, isso, para mim, é uma homenagem a cada disco, a cada gravação, a cada regravação, e estou muito feliz com isso.

- Que cantor ou compositor você gostaria de gravar?
RC – Não sei; depende. Logicamente quando se começa a pensar num projeto como esse a gente busca as canções que ouvia quando era menino. Isso pode acontecer até dessa forma, mas não tenho em mente um repertório definido.

- Por que você não trabalha no dia de Santa Luzia?
RC – É uma promessa que fiz quando meu filho nasceu, porque ele tinha um problema de glaucoma. Então pedi a Santa Luzia pelo meu filho e prometi que guardaria o seu dia para o resto da minha vida. Por isso no dia 13 de dezembro não faço nada; não faço show, não trabalho, determinadas coisas não faço nesse dia, em homenagem e louvor a Santa Luzia.

- Por que você faz poucos shows em Belo Horizonte?
RC – Não, não tenho feito poucos shows em Belo Horizonte, não. Eu tenho feito em média um show por ano, o que é mais ou menos a média da minha programação. Às vezes pulamos um ano, mas de um modo geral é um show por ano. Não; a Belo Horizonte eu tenho ido bastante, quer dizer, não o quanto eu gostaria de ir. Tenho uma relação maravilhosa com os mineiros. Cada vez que eu vou lá me sinto em festa.

- Normalmente a crítica diz que você se repete nos discos a cada ano. O que você acha disso?
RC – Eu já respondi de várias formas essa questão de que faço um disco parecido com o outro, que eu me repito, isso e aquilo. Isso não é verdade, não. São pessoas que de um modo geral não analisam profundamente o meu trabalho que têm essa opinião. Não programa do Jô Soares eu dei, até, alguns exemplos que não sei se vou conseguir me lembrar agora. Não quero entrar no mérito da qualidade dos meus discos, pois isso não sou eu que tenho que julgar. Mas eu os considero até, de uma certa forma, bastante variado em termos de ritmo e tipos de canções. Por exemplo, eu ponho num disco “Mulher pequena” e também gravo uma canção... agora não estou me lembrando outra música que tem no disco de “Mulher pequena”. Então vamos pegar este disco: eu gravei a canção “Romântico”, “O charme dos seus óculos” e uma música romântica como a do Getúlio Cortes, “Quase fui lhe procurar”. Em outro disco eu gravei “Emoções”, que é uma coisa absolutamente nova do ponto de vista que naquela época um fox era uma coisa bastante nova dentro de um disco. Outro exemplo, “Luz Divina”. Ela é um rock-and-roll que não é uma coisa... Eu ia dizer que não era da minha praia, mas é da minha praia, sim. Não é da minha praia como roqueiro, mas desse meu lado roqueiro. Então, eu não entendo muito essa crítica. Quando eu gravei “Cama e mesa”, eu nunca tinha gravado samba, e aquilo é um tipo de samba, adaptado ao meu jeito, à minha forma de cantar. “Música suave” é um fox-troit, e acho que esse tipo de música, apesar de ser dos anos 30 e 40, se você grava hoje são canções absolutamente novas. Por isso é que acho que há uma análise muito superficial do meu trabalho para dizer que eu me repito. Não, não concordo de forma alguma e vou até aproveitar para falar da capa desse último disco. Provavelmente, provavelmente não... com certeza vão dizer que é parecida com a de dois anos atrás. É parecida mesmo, eu acho que é bem parecida mesmo, mas eu gosto dela. Alguém vai dizer “ele só tirou a jaqueta porque naturalmente ele estava com essa camisa por baixo naquele ano”. O que é que eu vou fazer? Eu ando muito de azul, estou sempre de azul, e toda vez que eu estiver de azul alguém vai dizer “olha, é a mesma capa”. Se aparecer de perfil ou de corpo inteiro vão sempre dizer que é a mesma capa porque estou de azul. Mas este ano estou na praia. Então, eu não me preocupo com essa questão. Importante para mim é fazer um bom trabalho, compor minhas canções com muito amor, com muito empenho, colocando nelas a melhor qualidade que eu possa colocar, e fazer um disco que eu fique feliz com ele. Um disco para pessoas que tenham o mesmo gosto que eu, pois penso como o povo, gosto das coisas que o povo gosta e fico contente quando faço um disco e ele é bem a ceito pelo povo. Com todo o respeito, que me desculpem os críticos, mas felizmente a crítica não representa o gosto do povo, e faço meus discos para o povo.

- Nesse disco você está mais romântico. Isso é proposital?
RC – Se nesse disco eu estou mais romântico? Deixe-me pensar... é, acho que estou sim. Não digo que ele seja o mais romântico; de repente ele pode ser mais romântico que o do ano passado, mas pode não ser mais romântico que o disco de três anos atrás. É relativo, mas é um disco romântico.

- Você já fez músicas para as gordinhas, para as baixinhas e agora para a mulher de óculos. Isso vai ser uma característica de seus trabalhos?
RC – Pode ser que sim... Eu já pensei em fazer música para as magrinhas, para as altinhas, enfim... Mas isso depende muito, não é uma coisa planejada; é algo que surge, como já falei. Eu estava num show, apenas preocupado em fazer um bom espetáculo e surgiu a idéia de fazer uma música, uma canção para as mulheres que usam óculos. Nada é planejado. Como vou buscar um tema que atinja esse mercado? Eu não planejo meu disco assim. Eu planejo já partindo das canções que eu tenho, que já comecei e falta terminar. Eu faço músicas o ano inteiro; no fim do ano me encontro com o Erasmo para desenvolvermos aquelas que comecei e ele também. E aí, das dez, doze, quinze ou vinte músicas, a gente escolhe as cinco que vamos desenvolver naquele ano.

- Voltando à questão do disco das músicas-mensagens, você já tem algum repertório escolhido?
RC – Para o disco religioso, não, não. Tenho algumas idéias, como já disse. Se o disco for das mensagens que já gravei, como “Jesus Cristo”, “Nossa Senhora”, e agora, “Quando eu quero falar com Deus”, se for um disco assim, é só pegar todas essas músicas e colocar num CD, com uma remixagem de algumas músicas, principalmente das mais antigas. Mas em relação a um disco religioso novo eu tenho vontade de gravar, tipo: “Conheci um grande amigo”, “A barca”, e outras que nunca me lembro bem o nome. As primeiras que surgiram foram essas. “A barca” é uma canção de que gosto muito e que toca na igreja.

- Os filmes de que você participou foram lançados em vídeos. Que lembrança você tem daquela época?
RC – Ih, rapaz... As recordações que tenho são todas, porque esses filmes me trazem uma recordação muito grande de toda aquela época da Jovem Guarda, que para mim é uma coisa sempre presente. Mas eles me fazem recordar de forma ainda mais forte tudo aquilo.

- Você pretende fazer outros filmes?
RC – Voltar ao cinema, de repente pode ser que sim. Desde que eu fiz aqueles três filmes tenho pensado em fazer um outro. Já se passaram praticamente... quanto tempo... 25 anos, por aí, e eu não fiz. Pode ser que agora eu faça, mas o papel teria que ser outro. Não penso no papel, dependeria muito da história.

- Sobre o seu Especial de fim-de-ano, estão falando que você vai homenagear à Jovem Guarda.O que mais terá no programa?
RC – Temos alguns convidados confirmados. Farei um número com Ângela Maria. Estou muito entusiasmado com a idéia de fazer um número com ela. E também com a Daniela Mercury, que já gostaríamos de ter tido no programa do ano passado. Não foi possível por algumas razões, mas este ano estou contente por ela poder participar do meu Especial. Que mais? Falei de todos? Bom, teremos Erasmo, Wanderléa e a turma da Jovem Guarda. Eu não tenho aqui a lista toda confirmada, mas sei que teremos o Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, quem mais...

- O Cauby Peixoto vai participar?
RC – Não, o Cauby parece que não. A gente cogitou e ter o Cauby, mas não será possível. Não sei o que houve com a produção, não sei.

- É você quem escolhe os convidados?
RC – Eu opino, eu opino. Às vezes dou a primeira sugestão, discutimos, mas é sempre um trabalho de grupo, principalmente meu e do produtor, no caso, este ano, o Jorginho Fernando.

- Por que convidar a Daniela Mercury?
RC – Por que a Daniela Mercury? Porque eu gosto do trabalho dela, sou fã da Daniela, gosto do que ela faz, o público ama seu trabalho. Ela realmente é uma artista fantástica, enfim, sempre se fará um número bonito com a Daniela Mercury.

- Qual será o repertório do Especial?
RC – Não sei, isso não sei ainda, não.



Depois de 47 minutos, a assessoria de Roberto Carlos pede desculpas e encerra a coletiva. Roberto se dirige para uma outra sala e recebe as emissoras de rádio e televisão. Chego a minha vez. Eis o que ouvi dele, com exclusividade.



CE – Roberto, você está lançando um novo disco, mais um sucesso em sua carreira. Não concorda?
RC- Não sei se será um sucesso, mas muito obrigado por todas essas coisas bonitas que você falou.

CE – O seu disco já está nas lojas. Critiquem, ou não, queira você, ou não, é mais um sucesso. O que ele tem de novidade?
RC – Bom, tem as músicas novas que Erasmo e eu fizemos, como “O charme dos seus óculos”, “Amigo não chore por ela”, tem, por exemplo, “Romântico”, que gosto do ritmo, “O coração não tem idade”... Tem também músicas de outros compositores. Regravei “Quase fui lhe procurar”, do Getúlio Cortes, que é uma musica de que sempre gostei.

CE – Há três anos você vem regravando algumas músicas. Qual o objetivo dessas regravações?
RC – De vez em quando, ouvindo meu trabalho, encontro algumas canções que digo: puxa, essa é uma música bonita que depois de tanto tempo pode ser ouvida como se tivesse sido feita agora. É o caso dessa música do Getúlio Cortes. Se ela fosse lançada hoje em dia, ninguém diria que é uma música de 30 anos atrás. Então isso tem me interessado muito e até me emocionado.

CE – A sua música-mensagem deste ano é “Quando eu quero falar com Deus”. Fale um pouco dessa música e diga se existe uma emoção especial quando você compõe uma canção religiosa.
RC – Sem dúvida alguma existe uma emoção muito especial. É um trabalho que faço com muito empenho, com muito amor mesmo, e são as canções que mais demoro para gravar, porque fico pensando se estão bem. Se algo não está bem, eu volto a gravar, mexo muito nos arranjos, enfim... E “Quando eu quero falar com Deus” é uma música muito especial porque eu acho que quando a gente quer falar com Deus basta elevar o pensamento a Ele e conversar. Deus é pai e atende a tudo aquilo de que a gente necessita. Deus sabe, mais do que a gente mesmo, do que a gente precisa. Ele sabe, infinitamente mais do que a gente, do que a gente precisa. Ele sabe, realmente, o que é bom para a gente.

CE – Roberto, você vai gravar o seu Especial no Metropolitan, no Rio. Além desse show existe previsão de uma temporada maior? Aproveitando, quais os seus planos para 1996?
RC – Para agora não existe nenhuma temporada. A gente sabe que fará uma temporada esse ano no Metropolitan, mas não sei exatamente em que época. Deve ser em abril ou maio, qualquer coisa assim. Deve ser mais ou menos por essa época. Pelo menos os planos são esses. Agora em janeiro tenho uma excursão pelo Nordeste, depois mais alguns shows. Não sei se vamos logo ao Exterior. Estou lançando um disco em espanhol, que a princípio será para o mercado lá de fora, mas pode até ser lançado aqui.

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