ROBERTO CARLOS
entrevista coletiva realizada no Hotel Caesar Park, Rio de Janeiro
11.12.2006




Novamente a rotina se repete; mais uma coletiva de Roberto Carlos.
A emoção é a mesma todos os anos, como se fosse a primeira vez.
Mas, vamos deixar de conversa e saber o que o Rei falou para seus fãs.


Existe um dueto com o Tom Jobim no qual ele canta versos que não fazem parte da gravação mais conhecida da canção "Lígia" e você até se surpreende. Aquilo foi espontâneo ou já havia sido feito no ensaio também?
RC: Não, foi espontâneo. Aquilo realmente foi totalmente espontâneo e pra mim foi uma surpresa. Na hora eu fiquei preocupado por que eu não conhecia e preferi cantar a letra que eu sabia. Que bom que você notou isso. Muito bom, bom observador.

Ano passado cogitou-se a possibilidade do CD deste ano ser um CD de músicas inéditas, você até falou que estava trabalhando no material. Por que resolveu adiar e lançar este projeto com duetos? Tem a possibilidade de lançar inéditas ano que vem?
RC: Tenho. Era a minha idéia realmente lançar um CD de músicas inéditas este ano, mas eu também já tinha pensado muitas vezes em fazer este CD e DVD de duetos. Muita coisa me ocupou no início do ano e demorei um pouco a começar a compor. Achei que era melhor deixar o CD e DVD de músicas inéditas para o ano que vem e aproveitar este material que eu tinha, que eu tenho, todo feito nos meus Especiais na Rede Globo de Televisão.

Como foi feita a seleção das músicas? O que ficou de fora que você não queria ter cortado?
RC: Muita coisa. Na verdade, quando eu pensei em fazer este CD e DVD eu não sabia quantos duetos eu tinha e fiquei muito surpreso ao saber que são 93 ao longo de todos os meus Especiais de televisão. Aí começou o grande trabalho, selecionar tudo isso. Selecionamos 42, 43 até que chegamos aos 16. Tem coisas muito boas além destes 16 duetos que estão no DVD e foi muito difícil deixar de usar os outros. Acho que a gente tem material pra lançar os volumes II e III se quiser. Acho não, tenho certeza.

Dentre essas músicas que ficaram de fora, houve algum dueto que não pôde ser colocado no CD e no DVD por problema de negociação com outras gravadoras, outras editoras ou a família do artista?
RC: Não, não, até porque as negociações só começaram depois que as 16 músicas foram selecionadas. Não tivemos problema algum. Todos os artistas foram maravilhosos e aceitaram prontamente participar, sem nenhuma dificuldade. As negociações foram todas muito claras e muito tranqüilas.

O Schiavo falou que você vai gravar um CD em espanhol. Há quanto tempo você não grava em espanhol?
RC: Em espanhol? Nem sei... tem um bocado de tempo, uns dez anos, eu acho. Vamos fazer um CD ao vivo e um DVD agora em janeiro. Vai ser gravado na Espanha e este projeto já vem sendo estudado há algum tempo. Há mais de dois anos que venho pensando nele e tenho uma expectativa muito boa. Tem bastante tempo que eu também não vou aos países de língua espanhola, de língua hispânica, e estou animado com o projeto.

Saiu um livro recentemente contando a história da sua vida, uma biografia não autorizada. Eu queria saber se você leu o livro e qual é a sua opinião sobre ele.
RC: Eu não li o livro todo, mas as coisas que eu tomei conhecimento não me agradaram nem um pouco. O que eu li e que leram pra mim, enfim, tudo aquilo que eu tenho conhecimento do livro sinceramente me desagrada muito. Pra começar é uma biografia não autorizada e cheia de coisas que não são verdadeiras, coisas que me ofendem e também ofendem pessoas muito queridas, pessoas maravilhosas que são colocadas numa exposição bastante sensacionalista, o que eu acho um absurdo. Essas pessoas merecem respeito e acho que eu também. Acho não, tenho certeza. Além de tudo, é muito estranho que alguém lance mão deste patrimônio que é a minha história, que é um patrimônio meu. Se alguém tem que escrever um livro e contar a minha história, esse alguém sou eu, porque ninguém vai contar a minha história melhor do que eu e da forma mais verdadeira. Então, eu acho um absurdo quando uma pessoa lança mão do meu patrimônio em seu beneficio e principalmente de um produto para tirar proveito comercial, porque o livro é um produto comercial. Eu não concordo com isso, estou realmente muito aborrecido, muito triste. Meus advogados estão estudando o caso e vão tomar as providências dentro da lei.

Em 1997, você lançou um disco de clássicos em espanhol, “Canciones que amo”. Você não pensa em fazer um projeto com clássicos da música brasileira?
RC: Já pensei muitas vezes, principalmente um trabalho com com clássicos românticos. Já pensei e quase fiz um disco. Pode ser que de repente eu faça.

Foi gravado um DVD na última apresentação do show no navio. Você tem previsão de lançá-lo?
RC: Eu pensei muito em lançar esse DVD, mas ele precisa de mais material para ser lançado. A gente analisou e chegou à conclusão que deve deixar o DVD para mais adiante, de repente até com alguma coisa gravada no próximo cruzeiro, no Costa Fortuna. Quem sabe, com estes dois materiais possa ser feito um bom DVD, da forma que eu gosto.

Na coletiva do navio você falou sobre a pirataria, se queixou que as autoridades não estariam se empenhando para reprimir a pirataria no Brasil. O preço do CD nas lojas em comparação ao salário mínimo é muito alto. Você concordaria que a sua gravadora vendesse o seu CD a preço mais popular, de acordo com o bolso do brasileiro, para cair o nível de pirataria?
RC: Isso não é tão simples assim. A produção de um CD e DVD é muito cara, e todo o trabalho que uma gravadora tem pra lançar o CD e o DVD, todo o marketing também tem um custo alto que é colocado no preço do produto. O grande problema da pirataria no Brasil é a impunidade. Na Europa não existe esta liberdade do pirata vender o produto nas ruas. Lá a repressão é grande. Mas isso não acontece aqui. Não só CD e DVD, produtos piratas em geral são vendidos em todos os lugares, nas feiras, nas esquinas, e não é tomada nenhuma providência pelas autoridades. Agora vou dar uma de jornalista: Schiavo, em que lugar o Brasil está em relação à pirataria do mundo?
Alexandre Schiavo: Se não me engano o Brasil hoje só perde para a China e talvez para a Rússia no mercado pirata. É o terceiro ou quarto maior percentual de pirataria no mundo, com um percentual que chega a 70 por cento. É um número muito expressivo e mais importante que isso é que o governo deixa de arrecadar impostos em função da pirataria.
RC: Eu quero dizer o seguinte: É muito fácil pegar um disco, um CD, que o cara não gastou nada pra fazer, a não ser comprar o CD virgem, que custa pouco mais de um real, e a prensagem, e vender pelo preço que vende. Isso é muito fácil. Agora, fazer um disco, ficar dias e meses num estúdio com técnicos e músicos, tudo isso tem um custo muito alto. Não dá para qualquer gravadora competir com a pirataria.

Acaba-se perdendo mais dinheiro com a pirataria do que reduzindo a margem de lucro?
RC: Não se ganharia nada se fosse competir com o pirata. Não estamos falando em vender CD a R$ 3,00; estamos falando em vender a R$ 20,00, por exemplo. Você vai competir com R$ 20,00 contra R$ 3,00. Como é que fica? Quem vai comprar o CD de R$ 20,00 se tem do lado o pirata vendendo por R$ 3,00? É complicado. Só realmente a lei entrando de forma muito forte para resolver isso.

A maioria das gravações do disco "Duetos" é dos anos 90. Teve algum motivo especial, ou foi por acaso?
RC: Rapaz, eu nem percebi isso. Tem alguns duetos dos anos 80 também.

Tem dois ou três duetos dos anos 80, mas tem uns oito dos anos noventa.
RC: Nós não observamos esta questão. Fizemos realmente partindo daquilo que achamos que seria a seleção ideal para o DVD. Obrigado pela sua observação.

Há uma década você não lança um disco de composições inéditas. Você lançou o Acústico MTV, disco ao vivo, o disco em espanhol. O que acontece com o compositor, secou a fonte? Está difícil compor?
RC: Não, você está um pouquinho enganado. Em 2000 eu lancei um disco de músicas inéditas, apenas com três músicas não inéditas, e há dois anos lancei o “Pra sempre”, que também é um disco de músicas inéditas.

Mas, como compositor você não está presente, com músicas totalmente inéditas nesses discos.
RC: Não, o disco “Pra sempre” é de músicas minhas, minhas com o Erasmo e de outros compositores, todas inéditas. Algumas lançadas por outros intérpretes...Não, não. O disco “Pra sempre” não. Não me lembro o que tem no disco que não seja inédito, mas pelo menos sete ou oito músicas são inéditas. Realmente, no ano passado (2005) o disco que tem “Índia” e “A volta”, não é de músicas inéditas, mas eu tenho dois discos nesses dez anos de músicas inéditas. Também não é o ideal não! Mas não é uma questão de não estar compondo. Eu acho que chega uma fase da vida em que a gente compõe com mais cuidado, buscando algo maior do que buscava antes, então isto torna o trabalho de composição um pouco mais lento. Eu acho que isso não acontece só comigo não, acontece com todos os compositores, que depois de uma certa época, depois de um certo tempo de carreira, começam a compor menos, tomando cuidados mais especiais. Isso talvez cause essa demora.

Você tinha 93 duetos. Qual foi seu critério de escolha?
RC: O critério das músicas que mais emocionavam, e de um dueto ser compatível com o outro, para fazer um disco harmônico. Num CD e num DVD temos que buscar a harmonia entre as músicas. Chegamos a fazer vários formatos do DVD e do CD. Foi um trabalho muito demorado e muito criterioso, mas sempre partindo da emoção que uma seqüência e um conjunto causam.

Este ano você inovou ao levar MC Leozinho para fazer um dueto no Especial. Foi lindo, ele ficou super emocionado, foi o momento mais dançante do show. Fale um pouco desse momento, e se você pretende ir a um baile funk, como disse no Especial. De repente, o Leozinho pode vir a estar num próximo disco de duetos?
RC: Por que não, por que não? Leozinho realmente é ótimo, tem um estilo muito especial de cantar funk e uma forma muito especial de compor, como eu disse na apresentação dele no programa. Sua música tem poesia, é um pouco diferente do que se ouve de um modo geral no funk, mas não quero dizer que as outras letras não sejam boas, não estou dizendo isso. O funk tem sua forma especial de ser e a gente se diverte. Eu gosto de muita coisa do funk. Ao convidar o Leozinho, eu pensei que seria bom para o programa porque ele é um sucesso e, sem dúvida alguma, a música “Ela só pensa em beijar” também é um grande sucesso. Eu gostei muito da reação do público com a participação do MC Leozinho, foi realmente o que eu esperava. Ele é um menino muito legal, gente muito fina e fiquei muito contente com a sua participação no programa cantando comigo.

A idéia foi sua?
RC: Foi, eu sugeri o nome do Leozinho e a produção aprovou.

E o baile funk, você vai ou não vai?
RC: Claro que eu tenho curiosidade de ver como é que um baile funk. Tenho uma curiosidade muito grande não é de agora e falei isso com o Leozinho. Mas eu disse a ele que quero ir a um baile funk de verdade, não quero aquele baile funk de loja. Quem sabe qualquer hora o Leozinho me leva pra passear nessa praia? Por que não? Por que não conhecer? Eu acho tudo muito legal, o que é diversão sempre vale a pena.

Roberto, eu gostaria de voltar à questão da biografia. Que coisas são essas que te incomodaram tanto no livro?
RC: Em primeiro lugar são muitas mentiras, mas com todo respeito a vocês eu não gostaria de falar sobre isso, e nem era para ter respondido a primeira pergunta porque eu não quero tocar nesse assunto. É uma coisa que me aborreceu muito, aliás, me aborrece muito, e eu não quero falar desse assunto aqui.

Você aconselharia seus fãs a não comprarem o livro?
RC: Eu não estou aqui pra dizer o que meu fã deve fazer ou não. Só quero dizer que realmente não estou de acordo, me sinto agredido na minha privacidade, principalmente com coisas que não são verdadeiras. Isso me irrita, me incomoda, me entristece. Como já disse o caso está com meus advogados para fazer o que a lei permite.

Ano passado, aqui, você falou da sua evolução, uma certa abertura na sua vida profissional e pessoal em relação a sua terapia, ao seu tratamento contra o TOC. Este ano você diz no seu show, antes de cantar “Negro gato”, que a terapia deve estar funcionando porque você voltou a cantar esta música. E agora na coletiva, ao se referir ao MC Leozinho, você falou várias vezes a frase “por que não?” O tratamento está fazendo efeito?
RC: Na verdade eu melhorei bastante, mas isso não quer dizer que eu já tenha recebido alta. Melhorei muito e já canto “Negro gato”, mas em relação à música “É preciso saber viver”, ainda canto “se o bem e o bem existem”. Ainda não cheguei ao ponto de cantar “se o bem e o mal existem”. Não falo essa palavra na música, mas já digo na entrevista, sem duvida alguma que já é uma evolução. Mas volto a dizer, ainda não estou pronto para receber alta.

Você é considerado o maior nome de nossa música, mas aqui no Rio, das rádios populares apenas uma toca suas músicas (Nativa FM). Por mais que se faça sucesso, você não acha que os artistas populares e românticos ainda enfrentam preconceito?
RC: Eu não sei se é preconceito e gostaria muito que não fosse. Acho que os programadores têm suas razões quando tocam determinadas músicas visando o público ao qual a programação se dirige. É muito difícil opinar sobre isso, porque cada um tem as suas razões para fazer o seu trabalho. A única coisa que eu posso dizer é que isso não tem afetado o resultado comercial do meu trabalho, a venda dos meus discos e a presença do público nos meus shows. Tudo na minha carreira está muito bem, mas logicamente eu gostaria que minhas músicas fossem mais tocadas nas rádios do que são hoje em dia. Mas volto a dizer que isso não está afetando a minha carreira, as vendagens dos meus CDs e DVDs são muito boas, com bons resultados, comercial e financeiramente falando. Financeiro? É, também, por que não?

O que você escuta em casa? O que toca hoje na rádio que você gosta de ouvir?
RC: Eu gosto de tudo, de tudo que me dá alegria, que me causa emoção. Eu gosto de ouvir o sucesso, saber o que faz sucesso, porque me ajuda muito na hora de compor. Acabo sempre usando o que ouço nas minhas músicas. Eu gosto de tudo: funk, pagode e principalmente música romântica. Tinha uma época que ouvia até música clássica. Por favor, entenda “até” no bom sentido.

O que você sente falta de ouvir?
RC: De música romântica. Hoje as pessoas gostam de ouvir músicas mais alegres, mais festivas, mesmo que seja uma música romântica. Há músicas festivas, dançantes que são românticas. Não quero dizer canções como “As flores do jardim da nossa casa”, que apesar de ser romântica tem uma letra triste. Esse tipo de música triste e dramática não tem espaço hoje, mas as pessoas gostam de músicas mais suaves como “Pra sempre”.

Há dez anos, o então presidente da Sony falou que seu disco estava indo para as lojas com um milhão e meio de cópias, e que ao longo do ano você chegava a vender dois milhões de discos. O seu último disco não chegou a trezentas mil cópias. É verdade que há o problema da pirataria, mas em algum momento você fica preocupado por não vender tanto quanto antes?
RC: Não, porque isso não acontece só comigo, acontece com outros artistas também. Muitos colegas também chegavam a esses números e hoje não chegam mais. É uma questão de mercado. Além da pirataria, existem outras influências no mercado, como a internet que ainda tem pontos que precisam ser regulamentados em beneficio do artista. Tudo isso provoca a queda da venda do CD de forma significativa, e as gravadoras estão enfrentando problemas muito sérios com as vendas de hoje. Elas passam por um momento de preocupação muito grande com o mercado. Logicamente que isso me preocupa, mas não de uma forma pessoal, porque eu estou dentro da média em termos de vendagem.

Neste cotidiano estressante, nessa harmonia do psico-emocional, qual a receita do Rei para estar de bem com a vida, para ter uma vida saudável?
RC: Quem sou eu para dar receita? Eu sei cantar bicho! Eu acho que a gente tem que procurar viver da melhor forma, de forma saudável. Viver da melhor forma que se possa é o meu lema, e estou procurando fazer as coisas que são possíveis, cuidando da saúde, me alimentando bem, e outras coisas mais.

Com relação ainda à pirataria, a gente percebe que vários artistas ao longo de muito tempo vêm fazendo reclamações sobre o problema, mas não percebemos uma mobilização da classe de forma oficial, realmente cobrando das autoridades. Não está na hora de os artistas, de você que tem um nome forte na música, cobrarem isso diretamente das autoridades e não só reclamarem nos meios de comunicação como vem acontecendo?
RC: Eu acho que você tem razão. Eu não estou vendo um movimento nesse sentido, de cobrar uma atitude severa em relação à pirataria. Não vi, até agora, nenhum movimento nesse sentido. Vejo propagandas de televisão, mostrando que a pirataria é crime, mas isso não está funcionando. Concordo que deveria haver uma cobrança maior das autoridades, com leis defendendo o artista. Você tem razão, não tem existido uma cobrança maior nem da minha parte nem dos artistas de um modo geral.
Ivone Kassu (Assessora de Imprensa RC): Há uns cinco anos houve uma reunião com o presidente Fernando Henrique, com mais de cem artistas no Palácio do Planalto, mas não teve resultado.
RC: É, eu acho que é um problema das autoridades, elas é que têm que resolver isso.

Você falou que se alguém tem que escrever sua biografia é você mesmo. Existe um plano para isso, e que espaço o Espírito Santo teria nessa biografia?
RC: Com certeza um espaço muito grande. Eu venho pensando em escrever a minha história há uns vinte anos e todo ano eu digo: Este ano eu começo. Mas eu acho que este ano eu começo, esse ano não, em 2007, porque já estamos no fim do ano e tenho muita coisa para fazer, muito trabalho, e não vai dar para começar esse ano. Mas no ano que vem (2007) vou pensar seriamente em escrever a minha biografia, a minha história.

Você é um dos homens mais assediados, mais cantados por mulheres de todas as idades, até hoje...
RC: Eu?

É verdade, você sabe. A cantada mais recente foi a da Hebe Camargo que se declarou apaixonadíssima por você. De onde vem esse charme todo? O que você desperta nas mulheres?
RC: Não sei... Não sei, é muito difícil explicar isso. É uma situação muito delicada, não sei...Qual foi sua pergunta, objetivamente falando?

De onde vem este charme todo que deixa as mulheres apaixonadas por você?
RC: Eu? Eu? Charme? Eu sou como eu sou, entende? Gosto de brincar, gosto de cantar... Não sei responder a sua pergunta não.

E a Hebe?
RC: A Hebe é minha amiga, é muito brincalhona, é minha amiga de muitos anos e com certeza isso faz parte de suas brincadeiras.

Muitos críticos dizem que suas composições caíram de qualidade no final dos anos 80, principalmente nos anos 90. Como você vê esta analise?
RC: Acho que é mentira. Meu trabalho, minhas músicas, não caíram de qualidade. Podem não agradar a determinadas pessoas, principalmente quem fez essa pesquisa, mas não caíram de qualidade. Tive vários hits nos anos 80 e nos anos 90, como “Mulher pequena”, “Mulher de 40”, “Alô”... Pelas vendagens dos meus discos e pelo meu trabalho, eu acho que essa pesquisa é mentirosa.

Existem manifestações públicas pedindo que, na próxima gestão do presidente Lula, Gilberto Gil seja mantido no Ministério da Cultura. Qual a sua avaliação sobre o Gil após quatro anos? Você também deseja que ele continue no ministério?
RC: Gil é um homem muito inteligente, muito sensível e com certeza tudo que ele fizer vai fazer sempre de uma forma muito cuidadosa e sempre com muito empenho. Agora, eu entendo muito pouco de política para avaliar o trabalho do Gil nesses quatro anos, não sou a pessoa certa para avaliar isso. Admiro muito o Gil como artista e como pessoa, e acho que ele vai sempre fazer as coisas bem feitas e de forma cuidadosa. Se ele deve continuar é uma questão de se avaliar o seu trabalho de forma cuidadosa nesses quatro anos.

Você vai passar o Natal e Ano Novo no Rio ou pretende viajar?
RC: Vou ficar por aqui mesmo. Eu sempre passo Natal e Ano Novo em casa.

Ainda sobre o livro, sem tocar nos aspectos que você não quer falar, ele foi recebido pela imprensa de forma muito positiva, destacando que, pela primeira vez, você teve o reconhecimento de um trabalho histórico de um intelectual sério mostrando a sua importância na música popular brasileira. Você é considerado no livro o maior compositor da MPB e como cantor é comparado a Frank Sinatra. Não obstante alguns aspectos pessoais, no sentido da importância da obra você sai maior. Ao contrário do que a crítica afirma, o livro diz que a sua produção nos anos 90 é de tanta qualidade quanto no início de sua carreira. Você não acha que esse aspecto pode ser importante na história da música popular brasileira.
RC: E daí? Não tem nada a ver uma coisa com a outra. O autor se apropriou da minha propriedade, do meu patrimônio para escrever uma coisa que eu não autorizei, isso é o primeiro ponto. Você gostaria que alguém escrevesse a sua história quando você quer escrever a sua própria historia, me responde? Você gostaria?

Depende.
RC: Não, não depende não! Responde diretamente. Você gostaria que alguém escrevesse a sua historia e nem que fosse uma pessoa, que fossem várias pessoas contando a sua história do jeito que elas quisessem e bem entendessem e colocassem tudo isso num livro? Um livro para ser escrito sobre a história de alguém tem que ter só verdades, e não pode ter invasão de privacidade. Eu acho que a privacidade de uma pessoa, de um cidadão, deve ser respeitada a qualquer custo. A vida privada de qualquer um tem que ser respeitada! Não é porque o cara escreveu um livro, que me elogia em determinados pontos, que ele pode dizer coisas que eu acho que não devem ser ditas, coisas que não são verdadeiras e que ofendem determinadas pessoas. Você acha que por ele ter dito que eu sou isso, que eu sou aquilo, que eu sou considerado um Sinatra, que ele tem direito de ofender pessoas queridas, maravilhosas que merecem respeito? Expor estas pessoas a um ridículo, de uma forma sensacionalista? Eu não acho que isso justifica o que ele disse de bom. Não acho!

O futuro Secretário de Cultura, Luiz Paulo Conde, deu uma entrevista recentemente criticando a música sertaneja. O jornal “O Globo” fez até uma matéria com os sertanejos rebatendo as declarações do secretário. Queria que você comentasse o que o secretário falou, e da importância da música sertaneja na sua história.
RC: Com certeza isso é uma opinião preconceituosa. Você não pode dizer que esse estilo é bom ou ruim se baseando em determinadas músicas. Eu acho que todos os estilos têm coisas boas e coisas que não são boas, mas o que vale é a obra em si, é a música em si. No repertório sertanejo tem músicas muito boas e coisas que não são boas, porque estilo é uma coisa que você tem que analisar dentro de certos parâmetros. Como a bossa nova, que é considerada a melhor música brasileira, também tem músicas que não são tão maravilhosas, e outras não. Não se pode generalizar a coisa desta forma. Eu tenho muito respeito pela música sertaneja, até o sertanejo de raiz tem coisas bonitas. Agora, tem que se olhar isso de uma forma muito especial. O som é diferente, a forma de dizer é diferente e tem que se olhar sem preconceito.

Quando você vai fazer shows no Rio?
RC: Eu realmente tenho muita vontade de me apresentar no Rio e tenho pensado muito nisso. Eu estou sentindo muita falta de fazer uma temporada no Rio de Janeiro e isso está sendo tratado com muito carinho. Eu acho que esse ano, acho não, esse ano a gente vai fazer uma temporada no Rio de Janeiro.

As músicas sobre Jesus Cristo e sobre religião são um marco importante na sua carreira, e você não chegou a gravar uma música religiosa nesse CD. Não teve nenhum dueto religioso, foi um mero acaso, ou mudou a sua relação com o catolicismo?
RC: Não, não é bem assim. Tem um dueto que gravei de uma música religiosa, não me lembro qual agora e com que artista. (NR: “Oração pela família", com os padres Zezinho e Antônio Maria, do Especial de 1997). Mas quando eu falo mensagem não estou falando só das religiosas. Por exemplo “Amazônia” e “As baleias” também são mensagens, e nesse disco eu canto “Amazônia”, com Chitãozinho & Xororó.

Mas o catolicismo está de lado por hora?
RC: Não é que o catolicismo, a religião, esteja de lado mas ... eu continuo católico.

Como foi o encontro com Marisa Monte?
RC: Foi maravilhoso o encontro com a Marisa. Ela é uma grande artista, uma pessoa muito legal, muito simpática, amável, sensível. Foi muito bom o nosso encontro. Nós fizemos um ensaio no meu estúdio que também foi uma coisa muito boa, muito gostosa. Foi muito bom fazer este dueto com a Marisa e quero também falar do Jorge Ben, que é meu compadre e que durante muito tempo eu não vi. Foi outro encontro maravilhoso. Nós falamos muito das coisas daquela época, da Jovem Guarda, do meu afilhado Gabriel - eu sou compadre mesmo do Jorge Benjor - e foi muito bom voltar a vê-lo. Esses encontros do Especial me fizeram muito bem. Esse programa foi um programa de muita alegria, e eu gosto que essas alegrias aconteçam.

Por que “Insensatez” em espanhol?
RC: Porque eu gravei “Insensatez” em espanhol no disco “Canciones que amo”, em 1997. Foi uma sugestão da produção e eu achei que era uma boa idéia, enfim. Por que? Você não gostou? Eu queria cantar alguma coisinha em espanhol, pois há tempo que eu não canto. De vez em quando eu cantava alguma música em espanhol nos meus especiais e aí fiquei com vontade de cantar esse ano. E principalmente sendo uma obra do Jobim.

Falam que você estaria apaixonado pela Luciana Vendramini. É verdade?
RC: Não, isso é mentira. Existem vários boatos em relação à Luciana Vendramini. Não, não existe nada de namoro entre a gente, nada disso. São só boatos. Não estou namorando ninguém, também.

Vocês são amigos há muito tempo?
RC: Ela, de vez em quando, vai aos meus shows, a gente se fala, vai ao camarim me cumprimentar, nada mais que isso. Não existe nada além disso entre nós.

Você começa o próximo ano com alguma meta?
RC: Quero fazer um disco inédito, um CD inédito.

Você pensa em abrir espaço para a música eletrônica?
RC: Com certeza. Isso é sempre uma coisa que pode acontecer. Eu gosto de música eletrônica também. Eu gosto de todo tipo de música, e se me agrada eu posso gravá-la. Por que não?

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