ROBERTO CARLOS
entrevista coletiva realizada no navio Costa Mágica,
no cruzeiro "Emoções em Alto Mar"
25.02.2008




Como sempre ocorre nas viagens pelo projeto "Emoções em Alto Mar”, mais uma vez Roberto Carlos recebeu a imprensa numa coletiva. E desta vez, a bordo do transatlântico Costa Mágica, a coletiva teve um interesse ainda maior da imprensa e dos fãs já que ele não lançou CD no ano passado, e por isso não conversou com a imprensa no final de 2007.

RC - Em primeiro lugar, bom dia ou boa tarde para todos, obrigado por terem vindo.É um prazer grande estar aqui com vocês e poder bater este papo. Para mim é mais uma conversa do que uma coletiva.

- O que você acha da idéia do Ministro da Cultura, Gilberto Gil, de disponibilizar a obra dos autores brasileiros na Internet?
RC - Eu acho que tudo é válido para defender os direitos e os interesses do artista junto a todos os meios de comunicação ou de venda. Isso é válido desde que seja regulamentado para que o artista não seja exposto e não leve desvantagem por essa exposição.

- Você exporia a sua obra na Internet de graça?
RC - Não, ela teria que ser regulamentada. Tem que haver uma regulamentação porque as pessoas baixam as músicas, e o artista não é remunerado. Isso poderia ser um grande negócio para o artista, se ele for remunerado. A partir do momento que alguém baixa uma música, tem que existir uma taxa para isso.

- Desta forma você não fecha com o Gil?
RC - De graça não.

- Você ainda fica ansioso de vir aqui para o navio? Você perde o sono?
RC - A única coisa que não me acontece é perder o sono, eu não perco o sono por nada. Mas eu fico muito nervoso sim. Fico preocupado para que tudo corra bem. Eu sou perfeccionista e gosto que tudo corra da forma mais perfeita possível, essa é a minha grande preocupação. Não perco o sono, mas eu acordo várias vezes à noite pensando nesse projeto. Mas, eu fico mais nervoso com uma coletiva de imprensa do que com um show.

- A sua rotina e a sua alimentação mudam muito aqui no navio?
RC – A minha rotina muda porque aqui eu só faço o show. Às vezes participo de outras coisas, como dessa entrevista, a entrega do prêmio do karaokê, a participação no coquetel. Mas a minha rotina não muda muito. A minha alimentação é a mesma. Como eu praticamente vivo dentro do estúdio e eu acho aqui eu descanso um pouco.

- Como foi a origem do projeto "Emoções em Alto Mar"?
RC - Este projeto é uma invenção do meu amigo e empresário Dody Sirena. Quando ele me apresentou o primeiro projeto eu fiquei muito preocupado, e perguntei se era possível fazer uma coisa desse tipo. Depois que ele foi mostrando as várias maneiras, dando argumentos, percebi que isso era possível e que poderia ter um resultado positivo. Aí, eu topei. Quer falar alguma coisa, Dody?
Dody Sirena: Na verdade é um privilégio desenvolver este projeto, e deve se registrar que o Roberto sempre está à frente de seu tempo. No momento em que cogitamos fazer este projeto o Roberto se envolveu totalmente e de imediato percebeu que isso poderia ser realizado. Eu comparo o projeto "Emoções em Alto Mar” com a semana Elvis Presley que todos os anos é realizada nos Estados Unidos. Como os Especiais do Roberto na Globo já se tornou uma tradição no final de ano, esse projeto já está se tornando uma tradição do verão. É bom porque a imprensa leva a todo o Brasil o que acontece aqui no navio.

RC – Eu nunca ouvi o Dody falar tão devagar bicho! Ele fala tão rápido, mas agora falou tão bem explicado que até eu entendi. Às vezes, conversando com ele, eu tenho que falar: “Espera aí bicho, calma! Pára e começa tudo de novo que eu não entendi nada até agora”. Agora eu entendi tudo que ele falou.

- Que emoções você quer que os passageiros desse cruzeiro levem para casa?
RC - As mesmas emoções que eu estou sentindo, e que eu recebo dessas pessoas. Eu quero que elas tenham tudo isso em dobro. Toda essa emoção, essa alegria, esse contentamento. Eu quero que todo mundo aqui se sinta assim, dessa forma, e que guarde isso para sempre no coração.

- Depois da polêmica sobre a biografia, o que você tirou desse episódio? Algo mudou na sua opinião?
RC - Não, não mudou nada. A minha posição é a mesma, eu tenho muita convicção, muita certeza do que fiz, e para mim tudo foi resolvido pela justiça, dentro de todos os conformes da lei. A minha posição é a mesma e continuará sendo a mesma sempre.

- O que você pretende fazer com os exemplares da biografia não autorizada?
RC - Os livros recolhidos estão guardados. Eu não sei exatamente o que fazer, mas eles não estão me incomodando e não estão ocupando um lugar que me incomode.

- Você leu a biografia do Tim Maia que faz referências a você?
RC – Eu ainda não li, e peço perdão ao Nelsinho Mota, autor do livro. Ainda não tive tempo por causa do CD e do DVD em que estou trabalhando e que têm me tomado um tempo muito grande. Eu quase estou morando dentro de um estúdio, então não pude ler o livro, mas sei de muita coisa e sei que é muito bom. Eu não considero esse livro uma biografia não autorizada. Com certeza não é. É um livro de fatos da carreira do Tim Maia.

- E o livro que o Erasmo Carlos está escrevendo?
RC – Eu sei pouca coisa, às vezes ele me liga para perguntar certos detalhes e tirar algumas dúvidas. Pergunta se eu me lembro de determinados fatos e se conferem com as lembranças dele. Eu acho que o Erasmo não está escrevendo uma biografia, ele está contando coisas, fatos interessantes de sua vida, e com certeza são coisas que têm a ver comigo também, pela nossa amizade e por estarmos sempre juntos. Tenho certeza de que o livro do Erasmo vai ser muito bom e principalmente muito divertido.

- O projeto "Emoções em Alto Mar” de 2009 vai abrir as comemorações dos seus 50 anos de carreira. O que mais você está programando para o ano que vem?
RC - Eu fiquei até surpreso quando me lembraram que no ano que vem eu faço 50 anos de carreira, foi um impacto para mim. Eu não estou planejando nada porque fui apanhado de surpresa. Às vezes, eu nem acredito, mas mesmo surpreso certamente eu tenho motivos para comemorar.

- Ano que vem serão 50 anos dedicados à música. O que mais a carreira e a música lhe deram?
RC - Me deram a realização de tudo aquilo que eu desejava ser, de tudo o que eu queria ser. Quando eu comecei a cantar, aos nove anos de idade na Rádio Cachoeiro de Itapemirim, eu só queria ser artista. Eu não pensava que eu ia conseguir tudo o que eu consegui até agora. Então o que eu recebi foi muito mais do que aquilo que eu queria, do que eu pensava. Nunca pensei em receber todo esse carinho, esse amor, essas coisas maravilhosas que eu recebo dos fãs. Eu não sabia e nem imaginava que poderia receber tudo isso.

- Quando você vai lançar um disco novo?
RC – Eu já tenho o repertório praticamente pronto, até porque eu pretendia lançar um disco de músicas inéditas no ano passado. Tive vários encontros com o Erasmo, fizemos músicas, mas tive que interromper o disco para me dedicar ao CD e ao DVD em espanhol, que estou terminando. Acabei não lançando nem um e nem outro. Eu pensei que fosse muito mais simples fazer esse DVD gravado em Miami, mas não está sendo. Ele está muito complicado, muito difícil, mas vai ficar pronto em breve. Depois de lançá-lo eu já começo a fazer esse disco inédito. Eu quero começar mais cedo porque cheguei à conclusão que não dá para fazer um disco em menos de oito meses.

- Você pretende trazer a turnê em espanhol pelo Brasil?
RC - Não, mas não posso dizer que isso não vai acontecer. Eu nunca fiz uma tournée no Brasil cantando em espanhol, e tenho certeza que, se eu cantar em espanhol aqui, alguém vai gritar no meio do show para eu cantar em português. Mesmo em Miami ou nos países de língua espanhola sempre tem muito brasileiro, e quando chega na metade do show tem sempre alguém gritando “Canta em português, canta em português!” Com certeza a mesma coisa aconteceria aqui.

- Como anda o projeto com músicas sertanejas que você pretendia lançar?
RC - Eu comecei a fazer esse projeto no ano 2000 e não dei continuidade. Cheguei a gravar várias músicas no disco de 2005, como “Índia”. Eu ainda tenho algumas músicas gravadas, algumas até com voz colocada, e às vezes penso em continuar esse disco. Eu gosto muito dele, do que foi feito, mas agora a minha prioridade é um CD de músicas inéditas.

- Existe alguma homenagem à Maria Rita nesse show?
RC - Tem sim. A minha homenagem à Maria Rita é permanente, seja silenciosa ou não, porque ela vem do coração e das músicas que eu fiz para ela e que estão também no show. A minha homenagem para ela é permanente, é eterna, e essa homenagem não precisa ser divulgada. Só a forma é que muda, mas ela continua sendo igual.

- O que você está fazendo para se manter sempre jovem?
RC – Eu continuo marombando e fazendo tudo o que possa contribuir para manter a aparência, para esconder a idade. Tudo viu? Ou melhor, quase tudo.

- Qual o segredo da música brasileira ser tão amada pelo mundo inteiro?
RC - A qualidade, a música brasileira é de altíssima qualidade. O músico e o compositor brasileiro são muito musicais, muito criativos e isso tem um resultado muito positivo lá fora, é só observar o sucesso da música brasileira em todo o mundo. Eu não quero me incluir nessa relação porque não gosto de me auto-elogiar. Foi a bossa nova que iniciou tudo isso. Tudo faz parte da qualidade da música brasileira, que é muito boa.

- Você tem músicas para os caminhoneiros e taxistas, para as mulheres de 40, de óculos e para as gordinhas. Se tivesse que compor para outra profissão ou outro tipo de mulher, quais seriam estas músicas?
RC - Complicado viu? Complicado... Todas essas músicas que eu fiz partiram de uma inspiração muito grande, de coisas que eu aprecio, que eu gosto de falar, e que vêm do coração. Eu digo sempre que eu não sei fazer uma música de encomenda, porque toda canção que eu faço vem do meu sentimento, da minha verdade. Eu não sei, mas de repente pode ser que eu faça uma música para as mulheres morenas ou para as mulheres louras ou para as mulheres, sei lá... não sei...

- Por que não para as viúvas? (grita uma fã, sorteada pela produção)
RC - De repente, mas tudo depende muito do momento em que surge a inspiração. O trabalho de composição vem da inspiração e da transpiração. A inspiração é o momento em que surge uma idéia. Depois desenvolvemos o que surge naqueles versos iniciais. Em seguida vem a transpiração, que é um trabalho mais intenso, de noites e noites. Às vezes a gente faz uma música quase toda sob inspiração, mas ficamos semanas e semanas sem conseguir terminar só por causa do último verso. Aí surge a transpiração.

- Quem são os novos valores da música brasileira?
RC – Eu não sei se são tão novos, eu diria que são jovens, mas não chegam a ser revelações. Um é Jorge Vercilo, um grande compositor, um grande cantor. Também gosto muito do trabalho do Jota Quest e de tantas bandas maravilhosas que estão aí. Além deles tem muita gente boa e eu tenho inclusive aprendido muito com esses caras. É bom aprender com eles para ficar atualizado.

- Você está pretendendo lançar um perfume com seu nome?
RC – É verdade, mas estamos estudando com muito cuidado. Acho que logo essa notícia poderá ser dada oficialmente. Eu penso nisso há alguns anos mas até hoje eu estou pensando que tipo de perfume seria.

- Você vai ser o grande homenageado do Grammy Latino este ano? RC – Eu estou sabendo agora por você. Você sabia disso bicho, e não me contou? (pergunta Roberto Carlos a Dody Sirena)
Dody - O Roberto é convidado há mais de quatro anos para ser o grande homenageado do Grammy Latino onde ele seria o Person of The Year, a Personalidade do Ano. Mas sempre estamos adiando por falta de espaço na agenda. Eu ia te falar isso esta semana.

- Roberto Carlos, quem é você? RC - Eu bicho? Eu... eu, gosto de música, sou romântico, enfim. Eu não sei muito falar de mim. É uma coisa muito difícil, uma coisa delicada a gente falar da gente mesmo.

- Você é um abuso! (grita alguém do público)
RC: Eu não, eu sou eu, só canto. Eu sou eu, a única coisa que me vem de imediato é que sou um cara realmente romântico, que gosta do romantismo, e gosto de fazer músicas desse tipo. Eu acho que eu sou o que eu digo nas minhas canções.

- Como você descreveria seu estado de espírito?
RC - Ah... sei lá. Estou seguindo a minha vida. Estou fazendo as coisas que eu tenho que fazer, tocando a minha carreira, minha vida e lutando para que as coisas fiquem sempre da melhor maneira possível. Eu sou muito otimista e baseado nesse otimismo é que eu luto e sigo em frente. Não sei mais o que dizer, não. O meu estado de espírito? É bom, está tranqüilo, poderia estar melhor, mas estou bem.

- Porque você disse que seu estado de espírito poderia ser melhor? Isso tem a ver com seu lado afetivo, com o coração?
RC - Hum... Tem a ver com muita coisa... Como eu disse, eu estou tocando a vida, eu acho que tenho conseguido superar meus problemas, as minhas tristezas. Estou caminhando, progredindo nesse meu propósito de melhorar sempre. O que eu quero dizer é que ainda não cheguei lá, mas já andei um bom caminho.

- O que você diria para as pessoas que acreditam que o amor está ultrapassado?
RC - O amor nunca vai estar ultrapassado, mesmo que uma minoria tenha essa opinião e até questione assim. O amor sempre foi o que há de mais importante na vida de uma pessoa. Eu ouço que o amor está ultrapassado desde a Jovem Guarda, desde o início da minha carreira. Não, o amor não está mudando em nada e nunca vai mudar. O amor é um sentimento, não é uma reação física ou um modismo. O amor é o amor, acima de qualquer coisa.

- O que você sente em relação ao amor do seu público?
RC - Isso é uma coisa maravilhosa, chega a compensar a falta de liberdade que um artista tem. A gente perde a liberdade, mas tem a recompensa por causa desse amor, desse carinho do público. Isso é maravilhoso, porque é amor, e não importa a forma de amar.

- Você assiste ao Big Brother?
RC - Eu vejo sempre que posso. Como fico muito tempo no estúdio, eu só acompanho duas vezes ou três vezes por semana quando chego mais cedo em casa. É um programa interessante, divertido. A gente acompanha e começa a se interessar pelo que está acontecendo na casa. O Big Brother é um jogo complicado porque, além da inteligência, os participantes têm que ser simpáticos ao público, ter cuidado com todas aquelas câmeras, e a opinião pública é complicadinha viu?

- Você ficaria num Big Brother?
RC - Não, é muita invasão de privacidade para minha cabeça.

- Você é ligado em Internet?
RC – Não, eu quase não mexo em computador. Quem mexe para mim são as pessoas que trabalham comigo, eu ainda não tenho muita intimidade com o mundo virtual principalmente por falta de tempo. É preciso ter tempo para ficar “navegando” na Internet e eu não tenho esse tempo. Eu uso a Internet e o computador de uma forma muito objetiva e muito prática, mas eu não sei mexer com facilidade.

- Como se sentiu sendo homenageado este ano pela Beija Flor?
RC - Eu gosto de carnaval, eu gosto de tudo que o povo gosta. Eu acho que uma das razões do resultado da minha carreira é gostar de tudo que o povo gosta. Gosto de carnaval, gosto das escolas, acompanho o desfile, já fui algumas vezes ao sambódromo. Essa homenagem da Beija-Flor, através do mestre Paulinho, dedicando a mim o titulo desse ano, me deixou muito feliz. Imediatamente peguei o telefone para agradecer a ele. Todo mundo sabe que a Beija-Flor é a minha escola do coração. No ano passado o Paulinho já tinha feito essa homenagem e esse ano, quando ele fez pela segunda vez, eu disse que era muito para a minha cabeça. Duas vezes sendo homenageado é maravilhoso. É uma coisa muito, muito bonita. Eu fiquei muito contente e isso é mais uma demonstração do amor que eu tenho recebido. Obrigado Paulinho, Mestre Paulinho, querido.

- Embora capixaba você é um carioca, morador da Urca. Existe um movimento da sociedade civil sobre a questão do IPTU. Você vai aderir à campanha de adiar o pagamento do imposto?
RC – Eu estou aqui, no navio, sob o balanço do mar, procurando não me preocupar com estas coisas. Quero me desligar, pensar em música, em show, em carinho, amor e essas coisas todas e, você faz uma pergunta como essa para tirar o meu sossego? Olha, é uma coisa para se pensar direitinho para não se precipitar.

- Desculpe a pergunta.
RC - Eu sei meu amor, mas não podia perder a brincadeirinha. É lógico que, mesmo estando no mar, temos que pensar nas coisas que nos preocupam.

- Por que além do perfume você também não lança essa pulseira em comemoração aos 50 anos?
RC - Eu acho que todo mundo ia dizer que isso é muito antigo para ser lançado agora.

- Conta um pouquinho da história dela.
RC – Eu estava começando a gravar o meu segundo disco, e um dia eu entrei na sala do Evandro Ribeiro, que foi meu produtor e presidente da CBS, e essa pulseira estava na mesa dele. Eu disse que a pulseira era bacana e pedi emprestada para ir ao Programa do Chacrinha. Mas depois de pedir emprestada eu resolvi arriscar e pedir de presente. O Evandro me prometeu dar de presente se eu terminasse em um mês o disco que estava gravando. Eu combinei com ele de ficar usando a pulseira e que devolveria se não terminasse o disco a tempo. Como sempre, não consegui entregar o disco no prazo, mas como a pulseira já estava no meu braço, acho que ele não teve coragem de pedir de volta. Foi ficando comigo e eu mandei gravar meu nome. Ela é de prata e o meu nome é em ouro. Ela era justinha, mas agora sai à toa. Eu tinha 19 anos quando ganhei.

RC- Muito obrigado a vocês pela presença, muito obrigado aos jornalistas e à imprensa em geral. Obrigado até pelo “maneirismo” das perguntas. Muito obrigado por tudo. Um grande abraço, um beijo para todos. Obrigado por esse amor. Tchau.

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