ROBERTO CARLOS
entrevista concedida a Jaime Bayle para o
programa "En Directo"

maio 1998




Em maio de 1998, Roberto Carlos participou do programa “En directo”, na rede CBS, em Miami,
para lançar o seu disco “Canciones que amo”.
Numa conversa com o apresentador Jaime Baily, Roberto falou de sua vida e de sua carreira.


JB – Eu li que você não nasceu em nenhuma metrópole do Brasil, mas numa pequena cidade que não consigo nem falar o nome.
RC – Cachoeiro de Itapemirim.

JB- É um nome difícil para a nossa língua.
RC – Não o culpo por isso, é um nome bem complicado. Itapemirim é um nome indígena, que quer dizer “terra pequena”.

JB- Então, fale um pouco de sua cidade.
RC – Eu não sei exatamente quantos habitantes tem Cachoeiro hoje, mas certamente mais de cinqüenta mil pessoas. Ela fica no estado do Espírito Santo, entre o Rio de Janeiro e a Bahia, a cerca de quatrocentos ou quinhentos quilômetros do Rio de Janeiro.

JB- Faz muito tempo que você não vai a Cachoeiro?
RC – Deve ter uns dois ou três anos. Sempre que posso eu volto a Cachoeiro.

JB – Imagino que todos o conhecem em Cachoeiro.
RC – Sim.

JB – Com quantos anos você saiu de Cachoeiro?
RC – Eu sai de Cachoeiro com 13 anos.

JB – É verdade que com nove anos você já cantava na rádio?
RC – É, eu já cantava em casa, mas na rádio, realmente, eu cantei pela primeira vez com nove anos de idade.

JB – E o que você cantava quando era criança?
RC – Tudo, principalmente as músicas da época. A primeira música que cantei na rádio foi um bolero que fazia muito sucesso, e em espanhol, “Amor y mas amor”.

JB – E com nove anos você sabia o que estava cantando, sabia o que significava a letra?
RC – Não, certamente eu não sabia o que estava dizendo.

JB – Fale um pouco de sua família.
RC – Eu tenho dois irmãos e uma irmã. Meu pai era relojoeiro e minha mãe costureira. Tivemos uma vida modesta, mas nunca faltou nada para os filhos. Sempre tinha comida na mesa, a roupa da semana e a roupa de domingo. No domingo nós tínhamos uma roupa especial para ir à missa e ao cinema.

JB- Todos os domingos você ia à missa e ao cinema?
RC – Todos os domingos.

JB – E o que era mais divertido, ir à missa ou ao cinema?
RC – Os dois, gostava muito de cinema, mas também gostava muito de ir à missa. Eu ia à missa de manhã com a minha mãe.

JB – Seus pais são religiosos?
RC – Meu pai era espírita e minha mãe é católica. Por isso eu sou católico, mas conheço bem o espiritismo. Sempre digo que o espiritismo me explica muitas coisas, mas sou católico praticante.

JB – Nós sabemos que hoje você é muito religioso. Já era assim quando criança?
RC – Era, eu gostava muito de ir à missa.

JB – Desde pequeno você já queria ser cantor?
RC – Não. Eu só resolvi que seria cantor quando cantei pela primeira vez na rádio. Minha mãe queria que eu fosse médico, e antes de cantar pela primeira vez eu achava que seria médico. Mas depois que cantei, cheguei em casa e disse para a minha mãe que seria cantor.

JB – E ela aceitou?
RC – Aceitou. Acho que depois foi que ela também percebeu que eu deveria ser cantor.

JB – Você seria um bom médico?
RC – Eu penso que sim. Em sempre me dedico a tudo o que faço, e acho que se fosse médico eu me dedicaria bastante à medicina.

JB – Você não chegou a ser médico para curar as pessoas, mas suas músicas curam as almas.
RC – Obrigado, sendo assim vou continuar cantando.

JB – Quantos anos você tinha quando se mudou para o Rio?
RC – Na realidade eu não me mudei para o Rio, mas para Niterói, uma cidade do Rio de Janeiro que fica do outro lado da Baía de Guanabara. Ainda não tinha a Ponte Rio-Niterói e nós fazíamos a travessia em barca. Eu acho que quando fui para o Rio eu tinha por volta dos 13 anos.

JB – Foi difícil, com 13 anos, você deixar sua família e sua cidade?
RC – Não foi tão doloroso, porque na realidade eu não saí de Cachoeiro para me mudar definitivamente para o Rio. Eu deixei a minha cidade para passar as férias na casa de uma tia, em Niterói, e nesse período eu cantei em algumas rádios do Rio. Dois meses depois, quando acabaram as férias, foi que decidi ficar em Niterói. Em seguida a minha família se mudou para o Rio.

JB – Nessa época você já estava convencido de que queria ser um cantor famoso?
RC – Não convencido, mas resolvi ficar no Rio por seguir esse objetivo.

JB – Em que momento você teve a consciência de que era um cantor famoso?
RC – Foi por volta de 1963 quando eu gravei “Splish, splash”, que é a versão de um rock. Essa música foi o meu primeiro sucesso. Depois fiz a minha primeira música com o Erasmo, “Parei na contramão”, e logo em seguida gravei “O calhambeque”, que foi a música que fez com que eu chegasse ao mercado espanhol.

JB – Você ficou muito surpreso com a fama, ela mexeu muito com a sua vida?
RC – Não porque foi uma coisa gradativa. O meu primeiro disco eu gravei com 18 anos, um 78 rotações, pela gravadora Polydor. Você nem deve saber o que é um 78 rotações. Era um disco que tínhamos que ter muito cuidado porque ele quebrava com facilidade. Depois eu fui para a Columbia, onde gravei o primeiro LP, com 19 anos de idade.

JB – Você era um roqueiro?
RC – Eu sempre falo com muita satisfação que comecei cantando rock-and-roll. Muitas pessoas hoje não acreditam, e dizem: “Você, um cantor tão romântico, começou cantando rock-and-roll?”

JB – E como foi essa mudança, do rock-and-roll para a música romântica?
RC – O rock que eu cantava já era um rock romântico. Com algumas exceções, como “Splish, splash”, “O calhambeque”, as demais músicas eram bem românticas, mas no ritmo do rock-and-roll. Aos poucos eu passei a cantar as baladas até me transformar em cantor romântico, mas até hoje eu me considero um roqueiro.

JB – Como é, você ainda se considera um roqueiro?
RC – Até hoje, porque eu costumo gravar canções românticas com um tratamento musical de rock-and-roll. O rock faz parte da minha vida, está no sangue, por isso que ainda me considero um roqueiro. A influência do rock é muito grande em tudo que ainda faço, tem sempre alguma coisa que escutei no rock.

JB – Que roqueiros o influenciaram?
RC – Em primeiro lugar, Elvis Presley. Quando ele apareceu houve mudança na música. Também tem o Little Richards, por sua forma de cantar, Chuck Berry, The Platters, os Beatles. Mas todos os cantores e roqueiros daquela época me influenciaram.

JB - Foi difícil para você cantar em espanhol, ou já falava fluentemente o idioma?
RC – Quando comecei a gravar eu não falava espanhol. O meu primeiro disco eu gravei por convite do Caldeiro, que ainda hoje é o presidente da minha gravadora na Argentina.

JB – Em que ano você lançou esse disco?
RC – No início dos anos 60, penso que em 62 (nr: dezembro de 1964).

JB – Eu nem era nascido.
RC – Penso que não. A gravadora fez as versões das canções que havia gravado no Brasil e aproveitamos os mesmos arranjos.

JB – Esse disco foi uma coletânea dos seus sucessos?
RC – Eu acho que foram as músicas dos dois últimos discos que tinha lançado no Brasil (nr: foram as versões do disco “É proibido fumar”).

JB – Então você aprendeu a língua espanhola cantando?
RC – Sim, eu não falava espanhol, e ainda hoje nem falo direito! Eu decorei as letras. Quando eu comecei cantando em espanhol em tinha um sotaque bem argentino por causa das versões. Depois que comecei a viajar pelos demais países de língua espanhola foi que comecei a falar de acordo com as pronúncias de cada país, do México, da Espanha, da Colômbia. Quando faço uma tournée por esses países eu tenho que adaptar, nos primeiros dias demoro um pouco para falar de acordo com a acentuação de cada país, mas dois ou três dias depois eu já estou bem adaptado.

JB – Em que país da América Latina você vende mais discos?
RC – Eu acho que na Argentina e no México.

JB – Você sempre morou no Brasil? Em que cidades você tem residência?
RC – Eu só tenho uma residência, no Rio de Janeiro. Quando eu deixei a minha cidade eu fui morar no Rio, depois me mudei para São Paulo, onde vivi 12 anos. Há 20 anos eu retornei para o Rio de Janeiro.

JB – Você mora em casa ou apartamento?
RC – Eu moro num apartamento na Urca, um bairro pequeno e com poucos habitantes. É um bairro muito tranqüilo.

JB – Fale um pouco de seu apartamento.
RC – Eu moro de frente para o mar. Meu apartamento fica perto do Iate Clube, por isso eu digo que é uma paisagem que se move por causa da grande circulação dos barcos e das lanchas.

JB – Qual o andar do seu apartamento?
RC – Eu moro no quinto andar, mas deve representar o sétimo andar por causa da garagem e de um salão de festa.

JB – Você vai à praia?
RC – Não, eu fico apenas admirando, vendo a paisagem.

JB – O mar te acalma?
RC – Sim, me passa certa tranqüilidade.

JB – Você tem barco?
RC – Sim, se chama “Lady Laura III”.

JB – Por que esse nome?
RC – É o nome da minha mãe, que vive no mesmo edifício que eu moro.

JB – A sua mãe costuma sair de barco com você?
RC – Sim, ela gosta muito. É uma pessoa muito alegre.

JB – Você mora com sua esposa e com seus filhos?
RC – Não, meus filhos moram em São Paulo.

JB – Eles já são grandes, já deve ter 50 anos?
RC – Não, não chega a tanto, a minha filha menor tem 26 anos. Mas, graças a Deus, já são todos independentes.

JB – Quando você não está trabalhando o que gosta de fazer?
RC – Eu gosto de ver televisão, principalmente novelas e telejornais. Ainda mais agora com os canais a cabo têm muitas opções para se ver.

JB – Você acompanha as novelas?
RC – Eu não consigo acompanhar por causa da minha rotina de trabalho, mas quando estou em casa eu vejo alguns capítulos.

JB – Você gosta mais de ver ou de fazer programas de televisão?
RC – São duas coisas distintas. Mas gravar programas de televisão dá um certo trabalho, e só depois de ver o programa três ou quatro vezes é que consigo desfrutá-lo. Antes tem sempre os questionamentos: “isso poderia ser gravado de outra forma, esse texto não ficou bom, essa música não está bem gravada”. Por isso fica difícil relaxar me vendo na TV.

JB – Há quantos anos você está casado com Maria Rita?
RC – Nós vivemos juntos há seis ou sete anos, e estamos casados há dois anos.

JB – Em que aMaria Rita te cativou?
RC – Essas coisas só o coração pode responder. Tudo parte do coração: o conhecimento, a identificação...

JB – Mesmo depois de seis ou sete anos vivendo juntos, o amor e a paixão ainda continuam?
RC – O casamento não delimita o amor. No casamento é fundamental que os dois cultivem e alimentem o amor. Ele tem que ser tratado como uma planta, se a planta você tem que regar todos os dias, no casamento o amor tem sempre que ser renovado pelo casal.

JB – No seu disco, além de dedicá-lo a Maria Rita, sua mãe, seus filhos e seus irmãos, você também o dedica a Deus, Jesus e Nossa Senhora. Por que esses agradecimentos estão em primeiro lugar e com letras maiúsculas?
RC – Porque eu sou uma pessoa de muita fé, e em todos os momentos, não só nos momentos de aflição, eu penso em Deus e em Nossa Senhora. Sou uma pessoa de oração, rezo um terço todos os dias, refletindo cada dia um mistério, também tenho sempre um terço no pulso, e há um ano e dois meses eu faço todos os dias a novena de Nossa Senhora de Schöenstatt. É uma novena muito interessante que explica muito o sofrimento das pessoas. Essa oração dá muita força para aceitarmos o sofrimento, principalmente sabermos aceitar a vontade de Deus.

JB – Você tem algum lugar especial para fazer suas orações?
RC – Não, eu rezo em qualquer lugar. O avião, por exemplo, é sempre um lugar ideal para eu rezar porque não há muita coisa para se fazer. Quando as pessoas me vêem rezando o terço no avião devem pensar que estou rezando com medo da decolagem, com receio de o avião cair.

JB – Há quanto tempo você não corta o cabelo?
RC – Cortar, cortar, há muito tempo, eu mesmo aparo as pontas, mas mantenho sempre o meu cabelo nesse comprimento.

JB – Roberto, é curioso isso, um roqueiro de cabelo grande que reza o terço todos os dias. Por isso que você é um ícone, não há muita gente como você no mundo.
RC – Há, com certeza há, é que nós não conhecemos todas as pessoas.

JB – Vamos falar sobre o seu disco, “Canciones que amo”. Qual a música de que você mais gosta?
RC – Eu gosto muito de “Abrázame así” e “Adiós”.

JB – Eu gosto muito de “Las muchachas de la Plaza España”.
RC – Eu também, é uma das músicas de que também mais gosto desse disco, mas gostaria de falar da mensagem, “Coração de Jesus”. Eu sempre gravo uma mensagem em todos os meus discos.

JB – Uma mensagem religiosa?
RC – Nesses oito anos, sim, uma mensagem religiosa, mas eu já gravei mensagens falando de amizade, ecologia e fraternidade.

JB – Por que você gravou essa canção em português?
RC – Porque esse disco também foi lançado no Brasil, já estava na época de lançá-lo e ainda não havia uma versão em espanhol. Agora já temos essa versão feita por Budy & Mary Mc-Cluskey, e em breve ela será lançada, nas próximas edições.

JB – Você conhece esses compositores que você gravou no disco?
RC – Eu só conheço o Armando Manzanero, já gravei muitas canções dele.

JB – Ao cantar uma canção do Manzanero, você teve que pagar uma porcentagem, ou ele cedeu a música por agradecimento?
RC – Isso é normal, todos os compositores que têm suas músicas gravadas recebem seus direitos autorais, nada acima da tabela.

JB – Quais são os seus planos para 98?
RC – Eu pretendo fazer uma tournée nos Estados Unidos. Há muito tempo que não canto aqui. Também quero levar o meu show aos outros países latino-americanos. Fora isso, sigo fazendo meus shows no Brasil e no final do ano vou gravar o meu disco em português, encontrando sempre outras formas de cantar o amor e de falar em Deus.

JB – Roberto, muito obrigado pela entrevista, eu te admiro muito como cantor e como pessoa.
RC – Também foi para mim uma alegria muito grande dar essa entrevista. Eu sempre digo que uma boa entrevista não depende tanto do entrevistado, mas muito mais do entrevistador.

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