ROBERTO CARLOS
entrevista a Nelson Motta
na sua estréia no "Jornal da Globo"
21.11.2008




NM – Em 1958, você tinha 17 anos e era um jovem cantor de rock. Nesse ano o João Gilberto lançou a histórica gravação da música “Chega de saudade”. Qual foi a sua reação ao ouvir a música?
RC- A minha reação foi de surpresa, de uma música diferente de todas as que eu já tinha ouvido até aquele dia. Achei linda, maravilhosa. Naquela época eu morava no Lins de Vasconcelos e ouvi o João cantando no rádio. Eu fiquei espantado porque ele cantava de um jeito totalmente diferente, eu nunca tinha ouvido na minha vida aquela batida de violão.

NM- Você pensou em fazer uma batida igual?
RC- Com certeza, mas nunca saiu igual, porque igual a do João ninguém faz, bicho!

NM- Quando surgiu a Bossa Nova, você ficou na dúvida entre a Bossa Nova e o rock? Seu coração balançou?
RC- Balançou, porque logo em seguida eu comecei a cantar na boate Plaza, e não tinha nenhum sentido cantar rock. Eu me recordo que uma das músicas que cantava era “Blim blom”, do João Gilberto.

NM- Naquela época tinha o Bar Divino, na Rua do Matoso, na Tijuca, onde você, Erasmo, Jorge Benjor e o Tim Maia se reuniam. Você se lembra qual foi a reação daquela garotada com o aparecimento do João Gilberto?
RC- Nós nos reuníamos mais na calçada. O Divino era um pouco caro e não tínhamos condições de ir todos os dias. Mas, no dia que ouvi “Chega de saudade”, eu me lembro que cheguei à Rua do Matoso e comentei sobre a música, e todo o mundo teve a mesma reação que eu tive, achando a música e o estilo de tocar violão do João maravilhosos.

NM- Erasmo me contou que houve certa rejeição da turma da Bossa Nova com vocês, já que eles formavam um grupo muito fechado. Você também sentia isso?
RC- Era mais ou menos assim, mas o Carlos Imperial tinha um bom conhecimento no meio musical e abria as portas para a gente. Eu me recordo que uma vez eu participei de uma das reuniões de Bossa Nova na casa da Nara Leão, na Avenida Atlântica. Eu nunca me esqueci disso. Nunca tinha visto um aparamento igual.

NM- Como foi o seu encontro com o Tom Jobim no Especial de 78, na Globo? Vocês já tinham se encontrado antes?
RC- Não, foi a primeira vez e uma emoção muito grande. Uma responsabilidade enorme e eu estava muito nervoso. Imagine, cantar com o Tom tocando piano! Eu nunca podia imaginar isso. Eu fiquei muito contente e muito nervoso, tive que me controlar para fazer tudo certinho.

NM- Você e o Caetano têm se encontrado muito nos últimos meses. Vocês fizeram um show juntos cantando Tom Jobim e estão preparando um CD desse show. Pode acontecer alguma parceria?
RC- Olha, eu teria um prazer muito grande, seria uma honra fazer uma música com o Caetano.

NM- Fale um pouco desse CD.
RC- Eu nunca pensei em fazer um disco de fim de ano junto com outro cantor, e fora do meu repertório atual já que são músicas de bossa nova.

NM- Então o TOC está dando certo, já é um avanço. Será que a sua terapeuta vai perder o emprego?
RC- Eu espero.

NM- No ano que vem você completa cinqüenta anos de carreira? Ou há controvérsias?
RC- São cinqüenta anos mesmo, porque eu me considero profissional desde quando eu comecei a cantar no Plaza.

NM – Pode ter certeza de que o Brasil vai festejar com você.
RC- Obrigado.

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